quarta-feira, 20 de maio de 2015

Conheça nossa cozinha #8

Personagem fixo vs personagem aleatório

 Gocú, superomen, bátima, todos conhecidos de longa data, não?
 Tanto que mesmo escrito errado você sabe quem é.
 The Spirit acredito que também seja.
 Agora você lembra de Pincus Pleatnik?
 Mais uma pista: Santuário.
 Ainda não lembra, né?
 Outra: Pessoas Invisíveis, em Nova York a vida na grande cidade de Will Eisner.
 Agora da pra saber, a menos que você nunca tenha lido essa HQ. Se for o caso, recomendo.

 Quando falamos de personagens mais populares o tipo já vem a nossa mente quase como bordão de novela. É natural, afinal estamos convivendo há anos com goku, naruto e companhia.
 Porém às vezes uma história pede um sujeito comum, desconhecido, ou que sirva apenas para aquela dúzia de paginas em que ele atua.
 Por exemplo um homem quer ir a lua e decide construir um foguete no quintal usando peças de fusca.
 Não da para imaginar o bátima ou o Narutão fazendo isso sem que seja em uma comédia. Mas se a intenção é para isso parecer sério, uma pessoa comum seria bem mais interessante.
 Desde que entrei nos quadrinhos Inquietos tenho passado pelo dilema de que personagens usar, pois a proposta do blog é publicarmos coisas diferentes do fazemos normalmente. E por isso eu não publico meus personagens fixos lá (até o momento claro).
 Esse caso é interessante, pois quando aconteceu eu cheguei ao extremo de pensar em deixar os personagens que eu já tinha de lado só para se dedicar a histórias novas sem um protagonista fixo.
 Com o tempo voltei atrás e esse é um dos motivos para este blog existir, pois aqui é a casa das minhas tirinhas e velhos amigos do humor.
 Valeu o risco? Valeu, pois por muito tempo me dediquei mais a pensar em situações e histórias aleatórias do que histórias que se encaixassem no universo do Gato Pirata, por exemplo.
 Isso me ajudou a crescer como autor.
 Com a série 3 e lá vai pedrada, claramente inspirada na tira quase nada dos Gêmeos Fabio Moon e Gabriel Bá, eu penso só em situações para depois escolher os atores e não o contrário como eu já estava habituado.
 Em outras HQ´s publicadas por lá, o caso se repete, criei personagens para as histórias em vez de histórias para eles.
 A meu ver acho que funcionou bem, pois seria difícil um cara ter mãos de galinha em uma história, na outra perder o nariz no ônibus e em outra querer assassinar a vizinha que fala com a planta.
 O problema com isso é criar uma zona de conforto para os leitores, que estão habituados a personagens fixos e estereótipos com os quais eles já se identificam a tempos.
 O torna mais difícil conquistar a simpatia do leitor.
 Um personagem fixo quando cativa o leitor faz com ele queira mais histórias do mesmo e até consumir outros produtos, filmes e games estão aí para provar isso.
 Já um personagem que aparece em uma história, acaba ali no seu universo e o próximo trabalho do autor é sobre outra coisa completamente avessa tem chances de criar uma antipatia com o leitor. Prova disso são as reclamações, cancelamentos, podcast, nerds revoltados e etc que a gente vê por aí o tempo todo. Não só nos quadrinhos, mas em entretenimento em geral, somos acomodados. E isso não é uma reclamação, é só uma observação.
 Para alguns autores é cômodo e satisfatório trabalhar com um titulo fixo a vida toda, mas para outros (como o meu caso) por mais cômodo que seja às vezes é maçante. Pois queremos experimentar coisas novas de tempos em tempos.
 Para isso pagamos o preço por ter que conquistar e envolver o leitor a cada nova história. Isso exige habilidade e também o risco da insatisfação.
 Você pode gostar mais do Gato Pirata ou do Capitão Pedreiro (eu sei que não é todo mundo que gosta de ambos como eu) ou pode gostar da tira quadrinhos de segunda, que é caracterizada como série somente pelo mesmo titulo (e autor obviamente).
 Em uma tira do gato pirata, quem lê ainda pode esperar algo familiar, nem que seja só o personagem. Até porque só de bater o olho você que é o gato pirata. E isso é super legal não é? Eu sei que é, admita.
 Porém quando eu faço uma tira do quadrinhos de segunda, ninguém sabe o que vai acontecer (até mesmo eu) e isso exige dos leitores muito mais confiança, afinal quem gera o interesse em você ou outra pessoa ler a tira é o meu nome ou quando muito o desenho. Não o personagem que você já conhece (como se fosse uma marca).
 Quadrinistas em geral passam por isso, pois nós (eu também) leitores estamos habituados ao conforto de caras familiares o tempo todo. Facebook se baseia inteiramente nisso. Se fulano amigo meu curte a chance de eu curtir também é grande.
 Um caso engraçado é o do Angeli, após ouvir e ficar indignado com as criticas que diziam que a sua personagem Rê Bordosa já tinha criado vida própria matou a personagem na tira do dia seguinte. Ele mesmo comenta que foi um risco, pois podia estar matando a galinha dos ovos de ouro, assim como o cara Naruto poderia ter feito no meio da série.
 As agencias de distribuição de tiras para jornal ou syndicates nos estados Unidos se previnem contra esse tipo de coisa substituindo o artista caso o titular saia. Sim, eles são donos da tira e ela pode passar para outros desenhistas, assim como títulos da marvel ou DC.
 Um fator comum de os autores trabalharem com títulos únicos em vez de séries, pode ser porque no Brasil é missão quase impossível manter uma serie por muito tempo. Isso exige tempo, marketing, investimento entre outras coisas, para que a serie seja um produto e não só um quadrinho. Por isso quando fazemos uma revista não sabemos quando e se a próxima vai ser feita.
 Dito isso acredito que é melhor garantir a satisfação do leitor com uma história curte e fechada do que lançar 3 revistas e morrer no continua.
 No meu caso, é porque eu realmente gosto de experimentar coisas novas o tempo todo nos quadrinhos. Acho um grande desafio passar um ou dois anos trabalhando em único álbum como foi o caso do gato pirata em o pirata da cara de pau, que tomou uns bons meses de trabalho para ser finalizado.
 Como tudo isso tem seu preço.
 Mas ainda prefiro falhar em uma HQ de poucas páginas do que falhar em uma que me tomou 4 anos para finalizar, erro muito comum no mercado de “mangás”.
 Mas pelo sim e pelo não, a fase em que o personagem tem vida própria tende a passar, com o tempo o autor vai ficando mais conhecido e as pessoas passam a conhecê-lo como autor e não pelo cara que faz tal personagem (vide Fabio Moon e Gabriel Bá por exemplo), pelo menos o fãs mais fiéis.
 Espero chegar neste ponto um dia, se é que já não cheguei...Confesso que ainda não sei.
 Afinal volta e meia sou chamado de “você não é o cara que faz o capitão pirata” (fusão de capitão pedreiro com gato pirata), mas faz parte.

 Uma vantagem disso é o anonimato, nas exposições dos meus trabalhos adoro observar as reações dos leitores que não fazem idéia de que eu estou ali, da uma sensação de poder ficar invisível, é divertido.

 A recomendação não poderia ser que não Nova York a vida na grande cidade de Will Eisner (tem em bibliotecas públicas).
 Esta é uma coletânea dos livros Nova York: A grande cidade, O edifício, Caderno de tipos Urbanos e Pessoas Invisíveis.
 Em algumas das histórias vemos situações ou objetos como centro das histórias, como uma peça de teatro, onde o palco é o principal e os atores vão entrando e saindo de cena conforme as história decorre. 
 Como em o Tesouro da Avenida C que o centro da história é um bueiro e as histórias ocorrem em volta dele, bem como em o Edificio que tem a mesma premissa.
 Conheci o trabalho do Will Eisner através peça de teatro Avenida Dropse a alguns anos, muitas das cenas da peça são tirada desse livro. Como a peça não vai voltar em cartaz tão cedo, fiquemos com o livro que excelente.


E uma bicadinha lá na coluna do 3 e lá vai pedrada vai bem, né?


Ps: Ninguém ouve o que eu digo.
Ps2: Depois não terão nada para usar contra mim.