quarta-feira, 27 de maio de 2015

Conheça nossa cozinha #9

Cotidiano

 Ameaças a humanidade são poucas.
 Pandemia, seres superiores a nós, catástrofes naturais ou até própria humanidade.
 Já a vida pessoal de cada um é única. E mesmo com pontos comuns, existem inúmeras diferenças. Gênero, histórico de vida, vidas passadas ou sei lá mais o que. Talvez por isso seja tão difícil contar histórias sobre pessoas comuns. É um tema mais complexo do que parece.
 É difícil narrar o trajeto de uma moça do trabalho até em casa sem ser chato ou leviano.
Isso exige habilidade, saber descrever sentimentos, momentos, sensações, porque um monstro não vai parar o metro e ela vai se transformar na super mulher. A menos que o autor queira, claro. Porém sendo ela uma moça comum, o mais provável é que ela será só mais uma vitima da catástrofe.
 Então como fazer para tornar a esse pequeno percurso interessante para o leitor/ouvinte?
 A gente se interessa pela vida do outro o tempo todo, facebook é prova disso, nos quadrinhos não é diferente. Usar situações comuns a do leitor é uma boa saída.
Isso torna seu público limitado, porque exige dele um conhecimento prévio, ou experiência de vida para que você não tenha que explicar tudo o tempo inteiro. Mas me parece uma boa solução.
 Este ano comecei a cursar uma oficina de literatura, o que me obrigou a voltar a escrever textos e não só quadrinhos.
 Mesmo sendo mídias interdependentes ambas têm suas particularidades.
 Em quadrinhos sempre fui mais influenciado pelo humor e ação. Na literatura também gosto de humor, mas gosto mais ainda da casualidade, o cotidiano. Por isso sou um ávido leitor de crônicas.
 A crônica tem essa característica do casual, do comum. Talvez pelo publico. Afinal a crônica nasceu no jornal diário, não nos livros e talvez por ser diária elas tratem tanto do cotidiano.
 Nos quadrinhos tratar de temas comuns também pode funcionar bem, dependendo do estilo do autor.
 Em quadrinhos adultos é comum abordar mais o cotidiano.
 Relações, trabalho, rotina ou convivência podem parecer coisas de novela ou até bobos se comparados com sagas de heróis lutando contra deuses ou aliens em robôs gigantes.
 Mas mesmo nessas sagas épicas esses elementos estão presentes, em menor grau mas estão.
 Um filme de guerra pode narrar a guerra em si, ou falar sobre um casal e como a guerra afeta a vida deles, afinal ele pisou em uma mina terrestre e perdeu uma perna e ela é quem tem de sustenta-lo agora.  
 A temática não muda e sim o foco.
 Já o gênero muda, na primeira situação o filme pende para a ação, na segunda para o drama.
  Porque em vez de contar um romance focando o casal, não dá para focar alguém fora da relação? Na mãe do mocinho, ou até no cachorro (ao melhor estilo K9 um policial bom pra cachorro).
 Em comedias ou dramas românticos isso acontece.
 Por exemplo, quando o namoro é o objetivo do personagem central a trama pode focar mais na relação dele com os amigos do que na relação dele com a mocinha que só acontece no final. Quando o casal já está junto o foco já pode ir mais para a relação a dois. Os outros personagens apenas orbitam em volta do casal, mas as discussões e diálogos provêm da relação do casal principal.
 Eu já comentei que tendemos ao comodismo, talvez pela aceitação dos leitores ser mais fácil ou por ser cômodo repetir a fórmula uma vez atrás da outra. Como usar personagens fixos sem que eles evoluam com o passar do tempo.
 Arriscar ainda é difícil, a chance de fracasso é grande, mas sem isso o mercado estagna e a gente só vai ter as mesmas coisas para ler.
 É complicado.

 Mas é fato.

Eeeeee a recomendação de hoje é A vida de Jonas de Magno Costa (Zarabatana)
Pela capa qualquer um acha que é um livro de criança, porém é um drama fudido sobre um alcoólatra em tratamento e as dificuldades pelas quais ele passa na relação com a ex... Acho que é isso hahaha, se não acredita leia!
A decisão do cara em usar bonecos em vez de um desenho mais realista só deixa a história mais dramática, mesmo dando um ar cômico.
Mesmo não sendo um roteiro cheio de referencias intelectuais é um história simples e bem contada.

Vale a pena.


Ps: Ainda bem que nós é que vamos visitar quem já morreu e não contrário.