quarta-feira, 10 de junho de 2015

Conheça nossa cozinha #11

 Ouvi um dia destes não sei aonde que temos muitos desenhistas bons por aqui (in Brazil), mas não tantos roteiristas.
 E eu concordo.

Não consegui pensar no título da coluna...

 E não só aqui, mas no mercado alternativo em geral o autor tem que ser cantor, compositor, instrumentista, professor, para só ganhar dinheiro fazendo cover de outros artistas.
 E isso não é só na música.
 Nos quadrinhos temos que fazer todo o processo desde ter a idéia até vender a revista para o leitor, passando por roteiro, desenho, cor, impressão, prostituição pra pagar a impressão e etc.
 Mas no final o que provavelmente vai fazer o leitor ao menos bater o olho na sua revista é a arte.
 Por isso muitos autores despedem muito mais tempo trabalhando uma boa arte para a história do que se preocupando em como contar uma boa história.
 Eu sei que escrever meia dúzia de porcaria no word pode parecer bem menos trabalhoso do que ficar horas na prancheta desenhando, pode parecer mas nem sempre é.
 Pense.
 Quando vendemos um desenho e nos questionam porque cobramos tão caro por uma coisa que fizemos em 10 minutos a justificativa que damos é que estudamos 10 anos para fazer aquilo em 10 minutos.
 Com roteiro não é diferente. Para contar uma boa história é preciso pesquisa, bom domínio do português, técnicas de narrativa (e não to falando só de jornada do herói) domínio de diálogos e além de outras coisas, entender de quadrinhos.
 Tenho lido muitas histórias em que o autor faz tanto a arte quanto o roteiro e ambos ficam bons, outras vezes fica uma bosta. Outras que têm roteirista e desenhista, em que ambos ficam bons e outras que ficam uma bosta.
 Parceria não é garantia de sucesso.
 Às vezes temos idéias boas de roteiro e damos para aquele cara que desenha bem melhor que a gente e... Ele nunca desenha. Ou um amigo tem uma puta idéia da hora, quer que a gente desenhe e tal e... Ele nunca escreve.
 Na dúvida, faça você mesmo. Digo por experiência própria.
 Muita gente que escreve pode tender a ser descritiva demais ou o artista segue cegamente o que o roteirista faz sem questionar. Já li em outro lugar que desenhista é igual gado, tem que ser mantido na rédea curta. A menos que o roteirista seja um Neil Gaiman, tenha um domínio muito bom de narrativa, ou esteja me pagando muito bem para eu calar a boca eu vou questionar decisões que não me parecerem boas para a história... E mesmo que fosse o Neil Gaiman eu questionaria.
 Nas melhores parcerias que eu li os autores durante a confecção das obras tiveram conflitos de idéias e tomadas de decisões em conjunto o tempo todo. Por mais que seja uma parceria ambos, artista e roteirista têm que pensar de forma semelhante ou ser bem abertos para entender o jeito de pensar um do outro e quando possível serem a mesma pessoa. Caso não isso seja possível, que seja uma dupla com uma sinergia muito grande para entender a forma de pensar do outro ou para questionar uma decisão que não funciona. Como os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, por exemplo.
 O quadrinho NUNCA pode ser só um livro ilustrado. Às vezes o texto descreve a situação e o desenho ilustra a mesma coisa. Se isso é intencional ok, mas se não é fica redundante. É como dizer a mesma coisa duas vezes no mesmo quadro.
 O quadrinho é uma forma de arte, porém acredito que esteja mais para uma forma de literatura. Porque o desenho (ao menos na maior parte do tempo) está na pagina para passar alguma mensagem e não só para ser belo ou admirado como um quadro.
 Desenho é igual comida, se for bonito e ruim é uma bosta, tipo cupcake (que é uma merdinha enfeitada). Agora se for feio e gostoso, a gente come e repete igual feijoada (que é feijão com resto de porco).
 Então quando penso em escrever quadrinhos esse processo não se limita só ao roteiro, mas escrever também com os desenhos.
 Pantomimas provam isso, histórias sem texto que dizem alguma coisa só com desenhos tem um roteiro por trás.
  O cara pode até comprar sua revista pela arte (como eu já fiz), mas o que vai prender ele é a história.
 Não só a história que se conta com texto ou a que se conta com desenhos.
 A história que se conta com a junção de ambos.
 Afinal a linguagem dos quadrinhos não é só suporte para a literatura, um desenho bonito ou o primo pobre do cinema e animação, quadrinhos são quadrinhos. Com suas particularidades e características próprias.
 Talvez o que falte seja isso.
 Mais gente que pense quadrinhos.
 Que não pense só desenho ou pense só roteiro, que pense quadrinhos.

Minha recomendação da semana é uma web comic canadense chamada The adventures of super hero girl (Faith Erin Hicks), que é uma sátira aos super-heróis tradicionais.
Ta em inglês, mas pra bom jogador de rpg meio google tradutor basta né?





Ps: Quero morrer no mês de Junho e quero ser cremado...
Ps2: Assim meus amigos aproveitam à fogueira e levam umas batata doce e uns milho pra assar junto com o defunto.