quarta-feira, 1 de julho de 2015

Conheça nossa cozinha #14

 Eu vou ser repetitivo e bater na mesma tecla.
 Escrever é tão importante quanto saber desenhar para um autor de quadrinhos.
 - E se eu estiver desenhando um roteiro de outra pessoa?
 Aí você tem que se preocupar com outras habilidades, como narrativa, por exemplo.
 Mas se você é do tipo que gosta de fazer tudo, por opção ou falta de opção, vem comigo.

 A importância de escrever

 Eu estava há uns dois anos sem escrever nada além de quadrinhos.
 E neste belo ano de 2015 fui convidado a freqüentar uma oficina de literatura. O que só tem contribuído para minhas histórias em quadrinhos.
 Através de exercícios aparamente simples pude explorar muita coisa que eu não havia percebido e corrigir erros que eu cometia.
 A primeira coisa que eu aprendi foi a trabalhar mais a parte descritiva.
 Como o livro não tem imagens o tempo todo para usar de suporte o escritor tem que ter a habilidade de fazer o leitor imergir no mundo do livro só com palavras, nem ao menos som, só com palavras.
 Isso me mostrou como o texto de narração pode ser uma boa ferramenta e como ele pode ser usado de forma muito eficiente para contar uma cena quando não podemos ou não queremos usar balões de fala, ou ainda mais ilustrar o fato em si.
 Por exemplo:


 Essa é uma cena de uma hq em que eu estou trabalhando atualmente.
 Como o texto já passa tudo que eu quero dizer, posso explorar mais a cena sem precisar ilustrar o que está sendo dito como em comics antigos. Onde a redundância comia solta.
 Tipo:
 Narrador: O homem apanha encurralado na mira da arma em um movimento desarma o ladrão!
 Homem apanha pensando: Consegui desarma-lo!
 Vilão: Droga você me desarmou homem apanha!
 Mocinha: Homem apanha você é o máximo! Desarmou o bandido!
 Tudo isso no mesmo quadro... E antes que você venha me xingar, deixo claro que isso é isso é uma piada, mas a coisa era bem por aí.
 Ah sim, além do que a cena desenhada era o homem apanha desarmando o bandido...
 É bom trabalharmos o texto separadamente para aprender a explorá-lo também, assim como praticamos desenho gestual, observação, cor, para depois desenharmos um quadrinho.
 Outra coisa que eu aprendi e já escrevi sobre aqui, foi a importância dos diálogos. Muitos autores são escravos do narrador, seja por não conseguirem passar o que desejam com o desenho ou por puro vicio mesmo. Tem hora que o narrador da uma de Galvão Bueno e você tem que mandar ele calar a boca e deixar os personagens contarem a história por eles mesmo.
 Por exemplo, ao invés de ilustrar uma lembrança de um personagem quadro a quadro com flashback com ele como narrador, porque não colocar ele só contando a história com suas próprias palavras? Como fazemos na vida real. Se bem que isso foi antes das câmeras digitais e celulares fodões, com eles ganhamos o poder do mostrar ao invés de contar.
 Tipo em um interrogatório, o ladrão pode estar mentindo na cara dura e você pode passar isso só com o texto e um desenho claro. Além do que isso pode te economizar alguns quadros usando só dialogo ao invés de ter de desenhar cenas que às vezes são desnecessárias a história.
  Exemplo aleatório:

- Muito me admira o senhor invadindo o banheiro dos outros sem permissão! Já sei! Você é um ladrão. Um ladrão que entra nas casas dos outros pela privada para roubar. Pois bem feito que ficou entalado aí.
- Moça... Senhorita...Você ainda não percebeu a gravidade da coisa? Eu cai em um bueiro! Um bueiro no meio da rua e vim parar aqui na sua privada! Isso é impossível de acontecer!

 Esse é um trecho de uma crônica sobre uma mulher que acha um homem entalado dentro da sua privada só com a cabeça para fora.
 Eu poderia perfeitamente narrar esse trecho ao invés de colocar os personagens falando. Perceba não é questão de certo ou errado é questão de escolha. Podemos apenas descrever e narrar os fatos sem problemas, mas isso tem um impacto na sua narrativa, pode deixar mais interessante, mudar o ritimo e até o envolvimento do leitor na trama.
 A terceira coisa que eu aprendi, o poder de síntese.
 Ao contar uma história você tem o total controle do tempo, podendo fazer um segundo durar uma eternidade ou 10 anos se passarem em um segundo.
  É comum (digo por experiência própria) principalmente nos mangás nos perdemos em assuntos que não tem nada com a história por não sabermos nem definir sobre o que se trata a história.
  Em vez de começar com 700 anos após a guerra de Fieldgard o filho do rei descendente do tataravô da puta que o pariu, vivia em um reino oprimido e governado pelo malvado e opressor soberano dos bovinos, descendente de uma raça alienígena de mutantes bovinos da via láctea que teve origem... Que tal, juninho vivia em um reino governado pelo tirano soberano dos bovinos. Seu maior desejo é derrotar o rei e tomar-lhe o lugar.
 Obviamente que durante a história novos fatos vão se revelar e coisas serão mais bem explicadas, mas o objetivo do personagem é claro. “Tomar o lugar do rei”.
 É besta? É. É simples? É. É batido? É. Mas funciona? Funciona. O Bátma ta aí a 70 anos pra provar que funciona.
 Afinal todas as histórias do mundo são sobre coisa simples. Relações, desejos, objetivos e acima de tudo emoções, porque uma história que não te passa nenhum sentimento (seja alegria, raiva, compaixão) é uma história vazia.
 Se todas as histórias falam sobre as mesmas coisas, qual a diferença entre elas então? A diferença é como se conta.
 Os filmes mais fantásticos e histórias de ficção são recheados de clichês da vida comum. Erotismo, romance, humor, relações, emoções, etc... O jeito de contar é o que muda. O que faz você aceitar animais ou objetos falantes como sendo humanos? O fato de eles falarem? Terem consciência? Não. É porque eles expressam e nos despertam emoções.

 Obviamente que aí o desenho também ajuda um bocado, mas isso é tema para outra coluna.