quarta-feira, 8 de julho de 2015

Conheça nossa cozinha #15

- Esse é o herói.
- É? Ta com mó cara de vilão...
- É que ele é do mau.
- Então é um anti-herói.
- É? Achei que era só herói.
- Rótulos meu amiguinho, rótulos...

 Estereotipo uma benção e uma maldição.

 Você assim como eu pensa assim (por mais que diga que não e compartilhando fotinhas no ante preconceito no facebook) :
- Olha, os “homi” enquadraram os maluco tudo ali.
- Também, tudo com pinta de “mano”.

 Ok. Não estou aqui para julgar valores morais de ninguém, mas julgamos as coisas pela aparência o tempo todo. Seja homem, mulher, comida, cachorro, carro, etc. Isso faz parte da natureza humana. E nos quadrinhos (ou mídia visual em geral) isso não é diferente, já que são representações do mundo real e claramente dirigidas a nós humanos que julgamos as coisas pela aparência (mesmo sem a intenção clara).
 Aí entra uma ferramenta que ajuda a construir e ao mesmo tempo destruir as histórias.
 O estereotipo.
 Por exemplo, quando eu digo “Príncipe encantado” aposto que na sua mente já aparece a figura do sujeito. Braquinho, asseado, cara de bonzinho, bonitinho e etc. Agora quando eu falo “bruxa”, você imagina a velinha nariguda, corcunda, cozinhando peru no caldeirão (tudo bem, não tinha peru nenhum, era feijoada).
 Mas e quando eu falo LADRÃO? Ao invés daquele sujeito com mascara ao redor dos olhos e roupa listrada de cadeia americana eu imagino o sujeito típico de favela de bermuda, chinela baianas e sem camisa. Reforçando, não são valores morais, eu não tenho nada contra esse tipo de sujeito, mas quando passa do meu lado na rua eu fico cabreiro, assim como um policial, devido a fama que os policiais de serem brucutus grosseiros.
 Porque esses são julgamentos que eu fui condicionado a aceitar, assim como o que fazemos com relação aos personagens de quadrinhos.
 Por exemplo quando eu falo em herói de shonen de batalha, quem a vem a mente? Sujeito atrapalhado, comilão, engraçado, que tem um coração enorme e valoriza a amizade acima de tudo. Ao menos para a minha geração esse é o típico herói de mangá shonen clássico. Ou que tal o nerdizinho, loser, bonzinho que não se da bem com mulher nenhuma? Familiar?  Não é?
 Mas porque eles são assim?
 Acredito que seja pelo fato de eles conquistarem uma simpatia do leitor logo de cara, pois o leitor médio desse tipo de história é o nerd, looser, que não se da bem com mulher nenhuma (como eu já fui um dia). O leitor vive a história através da pele do personagem, então quanto mais características em comum ele tem com o personagem mais o leitor se identifica com os conflitos dele e conforme ele os supera, é como se o leitor superasse junto, mesmo que só na ficcção.
 Agora quando eu falo em vilão! Já é mais difícil definir não é? Existem pencas e mais pencas de vilões com inúmeras intenções desde dominar o mundo até roubar um moedor de cana para tomar garapa em casa.  
  Porque para gerações de heróis iguais, temos gerações de vilões diferentes. Apesar de podermos chegar a um padrão comum. O vilão é o cara que bate de frente com o herói. Ele tem um objetivo que vai contra os valores do herói. Geralmente é algo mau pra caralho que vai fuder tudo. Mas não tão simples assim, o vilão também pode ser uma situação.
 Exemplo: Nosso herói está escalando uma montanha sozinho, quais são seus inimigos? O chocolate galaktus que rompe os céus para pegar neve para fazer uma raspadinha? Não né (Ou sim, nas histórias vale tudo), os inimigos são as condições climáticas, seus sentimentos (medo, solidão, angustia, insegurança), aquilo que faz o mesmo papel dos vilões “vivos” por assim dizer, que é impedir que o personagem chegue ao seu objetivo. Vendo por esse ponto, o superomen é o vilão do Alex Lutor. Mas como nem todos temos os mesmo valores de ganância e ambição do Alex Lutor tendemos a nos indentificar com o superomen e seus valores corretos (porque é feio se identificar com o mau).
 Agora falando na gostosa. Se você é homem, ou mulher que curte mulher, na sua cabeça vem uma tonelada de gostosas. Desde as gostosonas seminuas até as mais fofinhas e “kawais”. A função delas na história é clara, agradar o leitor (quase sempre masculino), ou leitoras também (questão de gosto), e servir para trabalhar a parte sentimental (ou sexual) do personagem principal. O mesmo vale para heroínas com coadjuvantes bonitões. Ou heroínas que curtem outras heroínas e rapazes que gostam de outros rapazes.
 Os animais fofinhos que vendem pelúcia, o tiozinho sacana e tarado dos mangás e por aí vai.
 E qual é a parte que fode nisso tudo?
 Se os quadrinhos há anos foram construindo estereótipos, levaremos tempo para desconstrui-los ou talvez nem seja preciso pois podemos utilizar os mesmos a nosso favor. Exemplos com meu malvado favorito e o Xerek, que são heróis fora do comum.   
  Ou podemos descontruilos completamente, bem como tal “saga do herói” que é (quase) garantia de sucesso para uma boa história.
 Porem sair das formulas prontas exige do seu leitor mais maturidade, o leitor médio costuma ler uma história que se pareça com outra que ele gosta. E quando você da a ele algo fora do mundinho dele a possibilidade de rejeição é grande.
  Eu tenho o costume de assistir filmes e animes mais “cute”, não cute de experimental tipo laranja mecânica ou o que seja, mas filmes que quebram regras, em que o herói perde no final ou que tem um desenvolvimento extremamente lento, o que exige paciência e pode ser frustrante no final.
  Falando nisso essa semana assisti um filme nacional chamado histórias que só existem quando são lembradas (eu acho que é isso). É um filme foda. Mas na primeira meia hora não acontece porra nenhuma. Mostra só uma velha acordando cedo pra fazer pão, depois ela leva o pão para o armazém, o dono do armazém faz café, os dois se sentam do lado de fora e comem, ele fala sobre o tempo. Depois vão a missa, almoçam junto com os outros habitantes da pequena vila, ela varre a frente do cemitério fechado e vai para casa. E cena se repete mais uma vez. Para qualquer apreciador de filme pipoca isso é um martírio, assim como uma HQ baseada em nuances e sentimentos é um saco para quem curte explosões, ação frenética e peitões.
 Cito como exemplo de estereotipo meu personagem capitão pedreiro, fora o fato de ele exercer a profissão e falar como um ele se assemelha mais ao pedreiro do mundo real do que ao estereotipo do pedreiro, sim o cara que só passa cantada nojenta em tudo que é mulher.
 Quando eu faço uma tirinha com cantada, vejo que a visualização sobe consideravelmente, e quando é uma tira comum é sempre a mesma meia dúzia que lê.
 Eu poderia me aproveitar do estereotipo e de uma audiência já acomodada com pedreiro passando xaveco nojento? Com certeza que sim. Porque não faço? Porque é pobre, clichê, comum e não é o que eu quero dizer sempre.
 Ou então o gato pirata, com suas garrafas de rum e típico mau humor a lá capitão hadock. Poderia ser mais grosso e mau humorado? Poderia. Porque não é? Porque seria outro clichê. Seria mais bem aceito? Provavelmente sim. E porque não faço assim? Novamente, o que teria de diferente dos outros gatos ou piratas mau humorados? Porra nenhuma.
 Por isso antes de tudo, saiba o que você tem para dizer ao mundo. E que nem todo mundo vai se importar.
 Mas isso te impede em alguma coisa? Não. Mesmo que seja meia dúzia você sempre vai ter algum leitor mais compreensivo que não vai parar de ler sua história assim que ele se sentir desconfortável com ela e voltar para o mundinho dele.
  Porque acima dos estereótipos e clichês estão as boas histórias e uma boa história sempre merece ser contada.

E minha indicação de hoje é o filme canadense C.R.A.Z.Y. que é um filme com temática homossexual, não trata somente disso, mas também sobre descobertas escolhas preconceitos e rótulos. Além de ser meio tragicomico, enfim tá no meu top 10.