quarta-feira, 15 de julho de 2015

Conheça nossa cozinha #16

- Somos independentes?
- SIM!
- Estamos cagando e andando para o público?
- SIM!
- Vamos morrer de fome por não vender quadrinhos?
- Fudeu!

  Afinal o que os leitores querem?


 É legal estar cagando e andando para a audiência? É. Que leitor só sabe ler gocú ou bátma e não sabe apreciar coisas novas? Existem exceções. Afinal eu tenho que dar aos meus leitores o que eles querem ou o que eu quero dar a eles? Honestamente, um pouco de cada.
 - Aí meu quadrinho é bom, as pessoas é que não sabem apreciar!
 Em muitos casos isso é pura verdade, mas se o cara não lê sua história pode ser por outros motivos além da frescura ou preconceito contra o novo. E em casos não raros é porque sua história é uma bosta mesmo.

 “Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!”
 (Mario Quintana)

 Leia a frase novamente trocando “bom poema” por “Uma boa história em quadrinho”.
 Eu já disse que somos acomodados, tendemos a procurar algo parecido com o que já estamos acostumados.
 Bem, na hora de contar histórias isso pode ser uma ferramenta extremamente útil.
 Citei brevemente em outra coluna sobre o fato de que aceitamos objetos e animais falantes mesmo esses não fazendo parte da nossa realidade. E se pararmos para pensar isso é no mínimo bizarro.
  Mas isso se deve ao fato de que o ser humano tende a humanizar as coisas e colocar sentimentos em objetos e animais, às vezes até mais do que em outros seres humanos.
 No cast do 99 vidas (ouçam) sobre international super star soccer (deluxe), o Ronald Rios (convidado) fala algo do tipo sobre o fato de que todo mundo deixa aquele jogador mais pebinha no time, pelo menos no banco por apreço sentimental em vez de vende-lo.
 É algo como: “Isso que é foda no ser humano, ta ligado? Quando ele entra com esse lado emocional com as máquinas, projetando ali um carinho paterno no boneco.”.
 E quadrinhos, filmes, livros não são nada mais do que isso. Eles tem o valor que nós colocamos neles. Para o seu gato (ou o do vizinho se prefirir) o ultimo filme da marvet é grande bosta (assim como pra mim) porque ele não tem o mesmo sentimento que os fãs da série. E nós contadores de histórias temos que ter isso em mente ao criar, os leitores tem sentimentos que podem ser explorados, não de forma maligna como na publicidade, mas podem.
 Por exemplo, esses dias assiti um filme sobre uma mãe viúva que tem um filho com problemas mentais, como ela passa por varias dificuldades para cuidar do muleque e que em ultimo caso ela podia deixá-lo aos cuidados do governo em um sanatório publico, sendo que essa seria a opção mais benéfica para ela, se não fosse o sofrimento causado pelo amor de mãe que sabemos que é coisa foda. Que por mais que o filho seja um bosta a mãe o ama.
 É um filme bom, quase ótimo eu diria. Mas por varias vezes durante as duas horas do longa me deu vontade de parar o filme e ir procurar outro.
 Porque? O filme era ruim? Não. Mal construído? Não. Atores ruins? Nem de longe.
 Então por quê? Foi o que eu fiquei me perguntando quando o filme acabou. E a conclusão que eu cheguei é que eu simplesmente não me identifiquei com a história, ou com qualquer um dos personagens. Eu não senti aquela parada sentimental ou o mesmo carinho que eu tenho pelo ratinho do Ratatoulle.
 Por quê?
 Porque eu me identifico com as emoções do ratinho e com o que ele estava vivendo. O preconceito, a aceitação da família, etc. Porque muitos de nós já passamos por isso em algum momento. E tendemos a criar empatia por quem vive a uma mesma situação que nós já vivemos, ou estamos vivendo.
  Outro sensação que uma história pode nos provocar é a raiva, afinal quando um personagem age de forma que você agiria na história e você desaprova isso em você, você provavelmente vai desaprovar nele também. Tipo o carinha que fica com doce e não percebe que a menina ta dando em cima dele (o inverso para as moças também). Você diz que não. Ela ta ali querendo transar e tal que se fosse você, você ia pra cima sem pensar e sem broxar. Mesmo no fundo sabendo que você é inseguro (assim como eu, assim como um monte de gente que não admite) e isso revela que nós temos algo em comum com ele, o que nos provocaria empatia, mas dessa vez de forma reversa que é a não aceitação.
 Pode falar, você fica incomodado, eu fico, seja pela empatia ou pela raiva. No fim das contas estamos nos vendo ali na pele de outra pessoa, é uma situação familiar. E quem não sente nada não se identificou com ele. Que é o ponto do outro filme que eu falei. Os personagens não mexeram comigo, porque a empatia sempre parte de nós. Sentimentos sempre partem de nós, nunca dos outros.
 O mundo exterior pode nos provocar sentimos e sensações, mas no fim somos que sentimos e no caso dos personagens somos nós que colocamos nossas emoções neles. Tipo os bonecos do vídeo game. São polígonos e pixels, mas você vai me dizer que o Ellie do the last of us não mexe com você? E ela é só um boneco de vídeo game (por mais foda que ela seja).
 Então da pra fazer uma história sobre o givanildo tijolinho que seja um puta drama? Sim. Sabendo provocar as emoções certas no seus leitores você pode fazer as coisas mais improváveis se tornarem boas histórias (PIXAR quem o diga), ou como bons músicos fazem. Musica pode ser o que seja, se a gente gosta e porque se identifica, se não gosta é pelo mesmo motivo.
 Falando em coisas improváveis eu estou publicando uma história que chama-se piaçava.
 Essa história de 6 páginas fala sobre uma menina que chora lagrimas que viram cocada e para que ela e a avó não morram de fome, a velha não permite que a netinha sorria para chorar sempre e para que elas possam comer cocada.
 Bizarrices ou humor a parte, essa porra dessa história é extremamente dramática. Porque envolve sentimentos e questionamentos de valores. A idosa dentro da crença dela vê a coisa como uma benção, já a criança vê como uma maldição. Ou a maioria de nós, porque sabemos que a melhor coisa na vida depois de doce é sorrir. Porém isso está oculto na história que é uma tragicomédia.
 E se eu usa-se canibalismo, por exemplo, como em uma história de naufrágio onde um pai e uma filho a deriva no mar durante semanas chegam em uma ilha deserta sem comida nem nada e após alguns dias o pai morre e o filho tem como única chance de sobrevivência devorar o cadáver do pai.
 Tenho certeza que esse pequeno parágrafo com certeza te despertou algum sentimento em você, seja nojo, inquietação, “eu nunca faria isso”, “nossa que vontade de cagar”, (acho que essa ultima não).
 Porque eu usei tipos comuns “pai” e “filho” e como a maioria de nós conhece esse tipo de relação vai julgar o personagem ou se identificar com as atitudes dele por isso. Porque estamos vendo ali uma relação de pai e filho como a nossa relação de pai e filho (ou mãe e filho que é ainda mais sólida) e isso nos faz entrar na cabeça do personagem, porque queremos saber se ele agiria da mesma forma que nós para condena-lo ou simpatizar com ele. Novamente estamos nos vendo ali no lugar dele, mesmo que inconsciente estamos vendo ele colocando seus sentimentos em um cadáver, uma casca vazia assim como o boneco do vídeo game. E nós colocando nossos sentimentos nele, mesmo ele sendo só um conjunto de palavras.
 Novamente, é porque os humanos fazem isso, damos nossos valores sentimentais as coisas, sejam elas vivas ou não.
  Talvez se fosse um qualquer ali no lugar de um familiar como os passageiros daquele filme que o avião cai na cordilheira e os sobreviventes recorrem ao canibalismo devorando os mortos congelados, o garoto iria priorizar a sobrevivência antes dos sentimentos. E no lugar eu também agiria da mesma forma, mesmo tendo crenças de vida transcendente a esse plano material, porque essas são emoções humanas. É um cadáver? É. Mas não é um cadáver de um qualquer é um cadáver familiar, uma coisa, uma imagem, que me provoca sentimentos.
 É como uma história que minha mãe conta que sobre o fato de ela uma outra pessoa terem nojo de galinha ao molho pardo por causa do molho ser feito com sangue da própria galinha. Moral, um dia elas comeram esse prato sem saber. Lamberam os beiços e depois descobriram que haviam comido. Isso porque não estavam com o sentimento de nojo antes da refeição. A informação de que o prato era galinha ao molho pardo não era desconhecida e por isso não despertou o nojo na mente delas.
 Depois eu não sei o que aconteceu, mas enfim... Como contadores de histórias podemos usar esses aspectos a nosso favor.
 Desde que se tenha em mente que essas são apenas ferramentas para contar histórias e não regras, mas se sua história não provoca nenhum sentimento de empatia no leitor (seja pelo desenho ou pelo roteiro) ela provavelmente vai ser ignorada. E isso não é culpa sua, não é culpa de ninguém. É questão de gostar ou não gostar. Que no fim é empatia.

 Por isso faz o que você acha que tem ser feito dentre bilhões de alma sempre vai existir uma que vai ler o que você escreve e se identificar com isso, mesmo que seja só a sua.

A recomendação de hoje é minha HQ tragicomcica Piaçava:


E a quem interessar o filme “as vantagens de ser invisível” é foda também.

Ps: Leio bem menos histórias em quadrinhos do que você pensa.