quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Conheça nossa cozinha #19

 Me recordo quando comecei a desenhar lá no século passado. Nunca esperei ser grande coisa como quadrinista, só fazia para me entreter. E mesmo alternando entre fases de ilusões de grandeza ou foda-se o mundo continuo com esse mesmo espírito até hoje. E talvez seja isso que me mantenha produzindo mesmo com todos os contras.

 2 anos de web

 Este mês faz dois anos que estou produzindo quadrinhos sem parar! EEEE! Grande bosta... Opa... Que legal!
 Isso me fez parar e analisar todas as decisões que eu tenho tomado. Manter uma tira no ar ou não. Que estilo de história fazer. Devo tentar deixar meu trabalho mais comercial ou fazer do que jeito que da na telha, enfim. Duvidas que acredito que todos tenhamos o tempo todo.
- Então qual caminho tomar?
 Ta aí algo a se pensar. E para sair da duvida resolvi experimentar, não hoje ou ontem, mas sim durante a vida. Muitas vezes sem pensar ou saber que estava fazendo, em dado momento achando que era o caminho certo e outros só por embalo mesmo pra não ficar de fora da patota.
 Como quadrinistas e na vida em geral tentamos repetir o que nossos ídolos, pais ou professores fazem. Isso não é errado. É necessário, pois vendo seus pais falarem você aprendeu a falar. Então porque não copiar o desenho que você gosta pra aprender a desenhar?
 Eu comecei a desenhar junto com pessoas que pensam assim. Copiar é necessário. Só que eu sempre fui um desastre como copista. E até hoje eu sou. Se eu desenhar um personagem que não seja do meu jeito tende a sair meio bosta no final.
 E isso é ruim?
 Depende do que eu espero. Todos gostamos de aplausos, elogios e chamar a atenção com nossos desenhos.
 Fanarts são um prato cheio pra conseguir isso e eu adoro fazer fanarts. Porque eu gosto, não porque vai me dar likes ou aumentar as visualizações do blog. Faço porque é legal. E comercialmente vale a pena. Vender algo que já tenha empatia com o “cliente” é mais fácil que vender uma arte minha se o cara nunca me viu na vida.
 Mas... Tem sempre o mas né? Até onde isso te faz um artista melhor? Depende da aplicação. Quando você esta prestando um serviço por exemplo tem que fazer o que o cliente pedir. Ele está pagando pela sua habilidade. E a menos que ele queira uma coisa com seu traço e criada por você como um concept art, você faz o que cara quer, mesmo que seja um narutão na porta do açougue.
 O fato é que eu não me vejo como esse tipo de cara. Não tenho nada contra quem trabalha desse jeito. É um oficio como qualquer outro. Porém eu só sei desenhar do meu jeito.
- E qual parte fode nisso tudo?
 A insegurança.
 Não é sempre, mas ser cabeça dura às vezes ajuda um pouquinho. Não ao ponto de ser ignorante, mas saber ignorar certas coisas. Como padrões, gostos, opiniões, e não só dos outros, mas de você também.
 Quando meu traço era imaturo ainda e eu quis dar uma de gostoso fazendo um curso de pintura digital pra concept art. Eu achava que já estava pronto para aquele tipo de estudo. Mas o passar das aulas fui aprendendo a baixar um pouco a bola e ser mais humilde.
 Antes eu tinha a pegada do “auto didata”, achava que esqueleto geométrico ou linha de ação era coisa pra desenhista de comics (ou de quanta, inclusive pra morder mais a língua vou estudar lá nesse semestre).
 Sim, tem gente que não faz idéia do que porra é isso e vende seus desenhos por aí sem constrangimento. Bem como caras que tem um traço virtuoso e foda porque desenham quinze horas por dia.
 Quando comecei a estudar anatomia e desenho em um curso voltado pra isso, tive que passar por essa escolha. Manter meu estilo imaturo só pra ver no que dava ou ralar até aprender a desenhar realisticamente bem.
 Fui seduzido a ir pro lado realista da força. Afinal o que da mais aplauso? Meus desenho bosta ou retratinho de 6b?
 Mesmo essa decisão entrando em conflito direto com meu estilo de poucas linhas pela influencia do mangá e do cartum. Com isso meu traço deu uma puxada pro realismo absurda.
 Foi bom? Lógico que foi. Mas eu sentia que faltava algo, que ando descobrindo só agora depois um bom tempo desligado de padrões estéticos e criticas de gente que acha esse o único caminho possível.
 A minha identidade.
 Não identidade visual, porque isso é estilização. Como prova existem N desenhistas disney por aí, todos com um nível muito bom, mesmo sendo tudo parecido. Porém eu quero dizer sobre minha identidade como essência. É o que faz cara bater o olho no meu desenho e saber que é meu traço. Não que parece com desenho de fulaninho de tal ou tem influência de ciclaninho de tal. Uma coisa só minha.
 E isso implica em tomadas de decisão o tempo inteiro sendo a preguiça minha maior aliada. Porque a preguiça desliga minha autocrítica e deixa meu lado direito trabalhar em paz. Se já leram desenhando com o lado direito do cérebro sabem do que eu estou falando. O lado direito é o lado que não liga pra criticas ou para padrões lógicos como esquerdo que é o lado mais racional e mais chatinho que gosta de complicar tudo.
  E nessa variação é que estou me descobrindo, porque não adiantaria nada ser cabeção e bancar o “auto didata” ou ficar lapidando meu traço pra ficar igual fulaninho pra ficar sendo comparado depois.
  Por mais tosco meu desenho aparente ser ele ainda tem fundamentos de anatomia, perspectiva, luz e sombra, não com a virtuosidade ou a simplicidade que eu gostaria. Mas pelo menos só eu sei fazer desse jeito, o foda é aceitar e confiar que outros o aceitam como está.
 O negócio é trocar um pouco de autocrítica por mais autoconfiança e autoestima.

 E parabéns para mim por ter chegado até aqui.