quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Conheça nossa cozinha #20

- Essa perna aqui ta meio estranha...
- É que eu desenho assim, esse é meu estilo.
- Tudo bem, é só um toque porque ta meio quebrada.
- AH! Meu desenho é tosco mesmo e vai ficar assim.
- Ta bom.
- O que importa é uma boa história!
- É.
- Então porque você ta falando de desenho agora?
- Porque estilo não quer dizer desenhar com bunda.

  Sinceridade

 Não vou citar exemplos de artistas que quebram as regras do desenho acadêmico, que sequer botaram o pé dentro de uma escola durante a vida ou sequer estudaram o básico de anatomia.
 Também não vou citar os desenhistas que desenham quinze horas por dia pra ficarem virtuosos e hiper realistas.
 Vou tentar falar sobre quem (como eu já fui) usa desculpa do estilo pra não melhorar.
 E esse é um assunto extremamente complicado, por não existir desenho bom ou desenho ruim. Na minha visão o que existe é desenho mal resolvido.
 Vou citar como exemplo as aventuras da família Brasil do meu ídolo Luis Fernando Veríssimo. Ou as tirinhas do Ryot (já indicadas aqui na coluna nº 12). São desenhinhos bem toscos, mas que transmitem a mensagem que o autor quer.
 Já viram aquelas animações com bonecos de pauzinho? Tem umas que são fodas pra caralho.
- Então pra que eu devo estudar anatomia, luz e sombra, perspectiva, se o que importa é passar a mensagem?
 Eu realmente admiro quem tem plena aceitação do próprio traço, na verdade até invejo. Porque é uma coisa que fora as crianças poucos conseguem aceitar.
 Porém tem gente que usa disso como desculpa para não estudar e melhorar.
- Mas fulaninho de tal desenha com cocô e tem milhares de fãs!
 Aprenda uma coisa: A vida é injusta meu amiguinho.
 E um trabalho ser bom ou não também é algo questionável. Na china eles comem barata frita como se fosse ovinho de amendoim e por isso é gostoso? Sei lá. Talvez você não goste de ovinhos de amendoim...
 No meu caso em particular eu era relativamente acomodado com meu traço até antes de começar a fazer um curso mais profissa (como já citei aqui) e não vou ser hipócrita e dizer que eu era feliz e não sabia por que desenhava sem me criticar sem me auto cobrar e o que seja. Ta bom. Talvez eu fosse. Porque até hoje eu busco esse sentimento.
 Maaaaas eu lembro de como eu me sentia extremamente limitado para contar certos tipo de história e desenhar algumas coisas (mulheres em particular).
 Meu traço era mais um desenho tosco, imaturo, genérico do que um estilo propriamente dito. Possivelmente com alguns anos de lapidação obviamente que eu chegaria a um estilo mais sólido como o do cartunista Gilmar, por exemplo.
 E isso significa que eu não precisaria estudar?
 Ao contrário. Só o fato de desenhar todos os dias já é estudo.
 Não aprendemos coisas só nos livros ou com professores. O aprendizado é prática. Eu escolhi o caminho do desenho acadêmico, com regras, estruturas, proporções, técnicas, assim como poderia ter escolhido o caminho da observação. Sentar e desenhar o que eu vejo e ponto.
 E hoje em dia estou satisfeito com minha escolha. Não que eu seja um Alex Ross (e nem quero), mas hoje tenho menos bloqueios e limitações para desenhar do que tinha quando comecei. E isso é muito bom.
 Agora entra na história outro ponto do “esse é meu estilo” que é o mundinho aqui fora. Que começa na sua rodinha de amigos que lêem seus quadrinhos.
 Não é chato ouvir aquele: Nossa o que aconteceu aqui? Não entendi. Aí você tem que explicar para o fulaninho o que você levou mais desenhando do que leva pra explicar.
 Pense isso em nível mais amplo.
 Quando você posta seu desenho na internet quem vai ver não vai ter você o tempo todo do lado pra explicar o que aconteceu no quadrinho que ele não entendeu o desenho. O cara não vai aceitar como desculpa esse é meu estilo ao menos que você seja famoso ou tiver algum renome (o que muita gente usa pra vender quadro pintado com cocô pra rico entediado, mas enfim).
 Não vou dizer que anatomia, perspectiva, observação, luz e sombra não sejam importantes para um desenho bem resolvido. Claro que são. Mas antes de tudo isso procure prezar pela clareza. Você não sabe fazer mão de cinco dedos? Faça do jeito que você sabe. Desde que a pessoa que vai ver entenda que aquilo é uma mão não tem muito problema. E se você se conforma com isso, muito bem. Seja feliz e contente.
 E caso não.
 Só tem um jeito:
 Pratique, estude vá atrás e não se acomode. Conhecimento não ocupa espaço.
 Ter estilo é algo essencial, mas isso nunca foi justificativa pra ser limitado.

 Tem muito cara com desenhinho tosco fazendo sucesso não porque é preguiçoso e sim porque acredita no que faz. Porque com o traço dele ele consegue contar o tipo de história que ele quer com clareza. E eles conseguem transmitir isso para o leitor. A verdade. Quando você acredita no que faz você passa firmeza no traço e firmeza nas idéias, em vez de insegurança e isso se acaba se refletindo nas histórias.