quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Conheça nossa cozinha #22

- E esse cara veio de onde?
- Lá de casa.
- Ah, mas isso não está claro na história.
- E ta fazendo falta?
- Sim, não legal deixar pontas soltas ou questões em aberto para os leitores. Tipo o cara vai ler a história e vai se importar mais de onde veio o cara do que pra onde ele vai.
- Aí que coisa chata.
- Tem que estudar amiguinho. Tem que estudar!
- Teu cú.
- Vixe! Ta arisco?

 Explicar vs não explicar.

  Para qualquer autor é interessante conhecer varias possibilidades para ajudar nas tomadas de decisão em uma história. Mas é necessário explicar tudo de tudo como fazem alguns mangás, por exemplo?
- Esse é minha técnica especial de temperar peixe só com limão e alecrim! Que foi passada desde a décima segunda geração da família...
 Novamente entramos na questão do gosto. Tem história que funciona bem assim, e tem história que é só encheção de lingüiça.
 Outro exemplo, quando o narrador fica contando tudo o que já está acontecendo na cena. Soa fica até meio didático.
 Cena:
 O batmá pegando sua bat capa, sua bat lancheira e sua bat sei la o que...
 Narrador:
- O batmá pega sua bat capa, sua bat lancheira e sua bat sei la o que...
 Não é um erro, mas talvez seja um vicio.
 Porque normalmente quem faz quadrinhos lê quadrinhos e tenta imitar o que ele e acaba ficando restrito a esse mundinho.
 É errado?
 Não sei. Mas com certeza te limita.
 Assim como super heróis tem que usar roupas coloridas e colantes ou meninas tem que ter peitões. Os vícios de narrativa são comuns pra qualquer um que faz quadrinhos.
- Ta, mas esse é meu estilo.
 Estilo é outro assunto discutível, que pretendo abordar, por hora vou me limitar a dizer que se ta lá por um acaso não é estilo.
 Sim é humanamente quase impossível que todas as tomadas de decisão em uma pagina sejam planejadas e pensadas (Exceções existem), algumas coisas vão sair inconscientemente, mas mesmo em nível inconsciente você toma decisões.
 E a explicação excessiva pode ocorrer por ser uma muleta para um desenho menos claro. Muitas vezes eu mesmo me apoio no texto para resolver uma cena que não consigo desenhar com perfeição. E no começo era pior ainda. Era no nível de colocar uma setinha com o nome do que eu tentava desenhar para esclarecer.
 Talvez isso se deva ao fato de eu ter lido mais livros que quadrinhos. Por que no livro para ambientar o leitor é interessante saber jogar com as palavras e descrever bem as coisas.
 Hoje em dia como um cara mais experiente vejo que muita coisa o leitor pode deduzir por si mesmo sem precisar que eu pegue na mão dele e guie ele pelas paginas. Ele já pode fazer a jornada sozinho. Minha missão como autor é não deixar que ele se perca não é viver a aventura por ele.
  Exemplo se o cara ganha uma espada no capitulo 2 e resolve usar no capitulo 10 se eu resolvi bem a cena do capitulo 2 o leitor vai saber que a espada no capitulo 10 não é outra espada.
 - E se o cara não leu o capitulo 2?
 Nesse ponto é perdoável ter uma explicação ou um recordatório pequeno. Não mostrar tudo de novo se não vai ter alguma importância para a história.
 Tipo a espada foi do pai do personagem então ele se recorda do pai e o sentimento lhe da forças para se levantar e lutar contra o chefão.
 Agora se o cara achou a espada na rua ou comprou na lojinha de um real e não tem mais nada além disso, é necessário explicar a origem dela de novo?
 Essa é uma lição que eu aprendi no cinema.
 Vendo um filme chamado “The Double” que narra a história de um cara looser que baixa a cabeça para tudo até que um dia um cara idêntico a ele vai trabalhar no mesmo local e começa a praticamente tomar conta da vida dele porque ele tem moral, atitude e é todo fodão ao ponto de comer a mina que o protagonista quer e subir de cargo na empresa. Porém o filme todo não explica de onde saiu essa tal cópia. E isso não fez diferença nenhuma pra história se resolver, deixa até um ar de mistério.
  Muito louco isso.

E calma, estou tentando retomar as postagens do blog o quanto antes.