quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Conheça nossa cozinha #28

Mudando um pouco o foco vou falar sobre técnicas.

Timming

 O quadrinho é a mídia onde o autor tem controle sobre praticamente todos os elementos e um dos mais (se não mais) importantes é o tempo narrativo.
 Mais ou menos como uma cena de filme ou uma estrofe de uma música, podemos emular o tempo no quadrinho usando nossas boas e velhas imagens estáticas.
 Acrescer ou diminuir quadros ajuda a moldar a noção de mais ou menos tempo em uma determinada ação.
 A animação usa um principio similar.
 Sabendo que a animação é uma série de imagens estáticas que quando projetadas dão a impressão de movimento, quanto mais quadros uma cena tem mais lenta ela passa a impressão de ser. Como se fosse um efeito de câmeeeeeera leeeeeeeenta... Sacou?
 Você demorou mais tempo para ler “câmeeeeeera leeeeeeeenta” do que se eu dissesse “câmera lenta”. Só com a inserção de letras “e” eu consegui controlar a velocidade do tempo da sua leitura.
 Nos quadrinhos podemos resolver isso com mais dialogo (ou menos), mais quadros (ou menos), com a inserção de repetições. Como mostrar a mesma cena em diversos ângulos. Dando aquela desacelerada no ritmo da história.
 No mangá esse principio é muito evidente.

  - Eu vou usar minha técnica especial do feijão com farofa, passada desde a décima segunda geração da família Pereira!
 - Oh não, ele vai usar a técnica do feijão com farofa!
 - FEIJÃO COM FAROFA!

 Também conhecido com o principio de encheção de lingüiça... Mas enfim.
 Esse é um ponto importante, porque só o que realmente é importante para sua história deve ser enfatizado desta forma.
 Se não a cada ação fica uma ladainha sem fim só pra dizer que o cara fez uma coisa que leva meio segundo. Como aquela puta splash page que mostra o cara tomando um copo da água. Se for depois dele estar há dias vagando pelo deserto com sede e fome, funciona. Agora se for por virtuosismo...Não.
 Porque um quadro grande demora mais para ser lido, mesmo que você passe o olho sobre ele por um segundo. Uma pagina de quadro único da uma freada no ritmo. Pois tem a intenção de impactar, explodir na sua cara! BUM!
 Ou não, existem diversas soluções essa é só uma delas.

 Exemplos práticos:

 Policiais desarmando uma bomba.

Aqui temos a tensão, sensação de tempo parado.


 Aqui temos o dinamismo, pouco tempo entre as ações. Pa!Pum!

 Note que os primeiros quadros são praticamente iguais, porém na primeira ação o mesmo está dividido em três para dar a sensação de mais demora.


 A indicação de hoje é meu ídolo Norman McLaren, que sempre explorou a questão do tempo no cinema. Ele brinca muito com o tempo chegando a cortar quadros entre ações para conseguir mais dinamismo na cena, como se fosse uma animação mesmo, só que com gente.


A Chairy Tale (1957)

https://www.youtube.com/watch?v=5XIiWOuDuxc

 (Se preferir avance para 3:38 segundos.)

 Não que o quadrinho seja só o primo pobre do cinema, mas o mesmo principio se aplica.
 Até porque os quadrinhos são bem mais velhos que o cinema e ambos se alimentam um do outro.