quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Conheça nossa cozinha #34

- Aí fera, o negócio é fazer tirinha. É tipo pastel, da pra fazer uma dia por dia suave.
- Já vi que você não entende nada sobre tiras...
- Tem segredo não fera, só botar umas piadinha pro povo dar risada e já era.
- E suponho que pastel seja a mesma coisa...?
- Sei lá macho. Só sei que o bicho tem que vir acompanhado daquela garapa geladinha no grau!
- Já vi que você não entende nada sobre pastéis também...

Tirinhas!

 3 quadrinhos.
 Piadinha cretina.
 Todo mundo pode fazer!
 Só que não.

 Em tempos de hostilidade que vivemos é difícil expor sua opinião sem tomar um tiro, mas vá lá... Vamos falar sobre tirinhas.
 Ta aí um formato de quadrinhos muito atraente. Porque a primeira vista é um desenho tosco em um retângulo de 1 por 3 com 1 a 4 quadros de tempo.
 E é isso mesmo na maioria das vezes mesmo.
 O problema é que esse simples não é tão simples quanto parece.
 Como fritar pastel.
 Fritar pastel é algo simples, mas com certeza alguém já perdeu a mão fazendo isso. Tenho certeza.
 E é justamente essa simplicidade que é a parte difícil da tira.
 Por mais bobo que pareça uma tira condensa muita informação em pouco espaço. O que não deixa abertura pra erros ou muita explicação. O ideal é que a tira funcione no tempo dela (1 a 4 quadros) salvo tiras continuadas que tem mais espaço nas tiras seguintes.
- Nossa que formatinho limitado!
 Limites nem sempre são ruins, na verdade o limitação e a preguiça são a mãe e o pai da invenção. Em 3 quadros da pra contar muita coisa e passar a sua mensagem. A parte difícil é ter a pegada pra conseguir isso e no final ainda ficar bom.
 Eu já falei muitas vezes da minha impaciência com explicações infinitas em mangas de luta (não que isso seja um problema), isso se deve porque eles tem paginas e paginas para encher de informação e tem que tirar assunto de qualquer lugar para manter a história andando.
 A tira segue justamente o caminho oposto. A tira assim como a crônica na literatura tende ao estereotipo e o obvio para não precisar explicar muita coisa, justamente pelo limite que ambas tem. Isso devido ao local onde surgiram que foram os jornais. Que abusam de cada centímetro para condensar muita informação em pouco espaço.
- E quais suas considerações sobre fazer tiras?
 Adoro.
 Comecei como muitos por aí fazendo histórias de super heróis igual aos que eu via na televisão, porém sempre com um toque de humor e o ar sarcástico do Brasileiro. Minhas tiras são essa vertente das piadinhas desse universo.
 “Capitão Pedreiro” não é por um acaso.
- Da umas dica pra nóis aí então fera!
 1 – Estude.
  Não to falando pra você ir atrás de curso (o que também é útil), mas procure entender narrativa, timming, roteiro e as outras tantas ferramentas que o quadrinho possui. Isso com certeza reflete no resultado do seu trabalho. Acredite.
2 – Arrisque.
 Quer fazer tirinha, vai fundo faça um montão que uma hora você pega o jeito ou descobre que você não serve para isso. Não é vergonha nenhuma. Não adianta fazer tudo e não ser bom em nada.
3 –Seja você mesmo.
 Eu mesmo sou influenciado pelo que eu estou lendo o tempo inteiro, da pra perceber essas influências no trabalho. Porém são influências e não cópias.
 Eu adoro o Ryot e o Laerte, porém eu sempre procuro preservar o meu jeito de contar piada para não fique só um genérico deles assim como muitos por aí genéricos de outros artistas.
5 – Você não precisa ser necessariamente engraçado.
 Em tira existe a cultura muita forte do cômico. Existem tiras sérias e com outros temas inclusive. Tarzan e flash gordon eram publicações de aventura e ficção publicadas no formato tira continuada. Outro exemplo, apesar de quebrar um pouco o formato é a “quase nada” que não é uma tira cômica.
 Procure entender a mensagem que você quer passar. Nem todo mundo sabe ou quer contar piada.
6 – Cada tira não precisa mudar o mundo.
 Claro que isso não motivo pra fazer qualquer porcaria, mas cada tira não precisa ser espetacular sempre, mas tenha um crivo de qualidade. Tem tiras que eu aborto na metade ou mudo o dialogo inteiro e às vezes quadros inteiros durante a finalização porque eu achei uma forma mais interessante de contar a tira porque a idéia inicial não funciona tão bem depois de um tempo.
7 – Não entregue tudo de mão beijada.
 Isso é igual certos filmes de super herói que chegam a ser didáticos de explicar tanta coisa. Se alguém não entendeu a piada, nem sempre é você que não soube se expressar, por vezes a pessoa que é preguiçosa mesmo e não sacou a mensagem (ou a piada). E vai dar risada quando ler a tira de novo daqui uns anos.
 Porém há casos que a tira é mal estruturada mesmo e aí não tem jeito, você acerta na próxima.
8 – Use gatos.
 Além deles dominarem o mundo futuramente, gatos são uma boa fonte de inspiração pelo seu senso natural de bicho filha da puta. (Os fanboys de gato discordam.)
9 – Use cachorros.
 Cachorros tem uma variação de humor incrível, desde extremamente mal humorados até estupidamente bobos. E cachorros são foda. (Os fanboys de gato discordam.)
10 – Não use humanos.
 É mais fácil desenhar animais (ou não).
11 – Evite criancinhas dando lição de moral.
 Você não vai fazer algo como Calvin ou Mafalda. Não vai e pronto.
(Os fanboys de Armadinho discordam...).

 Enfim, acho que é isso e lembrando que tudo é questão de gosto.
 Esses toques servem não só pra tiras, mas para qualquer história que você queira contar.
 E ser popular não quer dizer que você seja bom e vice versa.

 Ps: Eu tenho um gato de estimação.

 Ps2: Não me sinto um ser humano superior ao resto só por isso.