quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Conheça nossa cozinha #35 - Mulheres e quadrinhos

- Aí macho e esse quadrinho aí?
Leitora de quadrinhos
- É uma história foda, tem drama, o roteiro  e  arte são honestos, vale a pena.
- E quem é que escreve.
- Essa mina aqui.
- Ih caraio ta lendo história de mininha agora é?
- É. Algum problema? Se tu não sabe Frankenstein foi criado por uma mina.
- É mesmo, é?
- Opa.

Autoras

 Um assunto sempre em discussão. Mulheres fazendo quadrinhos, ou qualquer coisa que é mais comum no universo masculino, tipo jogar vídeo game.
 É algo que não se vê sempre.
 Digo por experiência própria porque em curso de quadrinhos ainda se vê poucas mulheres. Uma pelo ambiente hostil de taverna com um monte de muleque fedorento falando alto e outra porque até pouco tempo como nos games antigos mulher no quadrinho era só a princesinha, o que acredito eu que incentivava muito poucas a se interessarem pela linguagem.
 Quando jovens sabemos como ícones são importantes para nossa formação. Vejo muito isso com pessoas homossexuais dando depoimentos afirmando o quanto eles se identificam com personagens homossexuais nos quadrinhos. Não por isso um dos títulos mais conhecidos da minha época eram os x-mens, afinal onde mais se achavam mulheres que lutavam de igual para com os meninos ou podiam se abordar temas como inclusão? Eu sei existem N outras Hq´s que abordam isso, mas estou me limitando ao que eu conheço e o que chegava na banca. (Apesar de eu só ter visto aquele que passava no sbt).
 E não só para mulheres é importante, para os homens também é importante ter ícones de representatividade. Você que se declara nerd esquece que até pouco tempo atrás esse era um termo pejorativo e que o homarãnha era uma quebra de padrão (Satã Lee tem seus méritos também).
 Além disso representar o mundo como ele realmente é com negros, brancos, gordos, magros, altos, mulheres e homens... Não só com gente bonita e virtuosa como mocinho de novela que nunca peida deixa as histórias muito mais interessantes. Personagens de mangá são tipicamente asiáticos porque (até onde eu sei) não se vê negros andando nas ruas do japão. O que não impede o autor de incluir negros em seu universo, afinal os quadrinhos podem tudo. Inclusive ignorar tudo isso. Mas o resultado seria um tédio visual como em certos títulos onde todo mundo é super lindo, super bom e super igual.
  Os quadrinhos não podem ser tipo passarela de desfile de moda onde só entra mina magra e carinha bombadinho gostoso, quadrinhos são uma representação do mundo e o mundo aqui fora não é assim.
 O mundo é cheio de gente fora do padrão e isso é legal.
 Tem espaço e gosto para tudo.
 Até pra jiló.
 Já imaginou se tudo que é comida tivesse gosto de jiló?
 Doce de leite com gosto de jiló? Que maravilha.
 Com relação as mulheres uma das coisas que abriram portas para esse novo olhar foi o quadrinho japonês, inclusive o primeiro que eu li foi ranma 1/2. E das hq´s que eu já li protagonizadas por mulheres uns 90% são nipônicas.
 Cito como outro exemplo a primeira mulher que foi protagonista nos games, que é minha ídolo Samus Aram.
 Metroid foi um divisor de águas no mundo dos games, uma pelas mecânicas e outra pelo fato de ser uma protagonista (a primeira) botando os bicho pra correr em vez de ser seqüestrada pelo vilão e ficar sentada esperando o herói chegar ao seu resgate.
 Ou a princesa Ariel (versão Disney) que quebra um pouco do estereotipo de bonequinha de porcelana das princesas Disney, apesar de no final casar com príncipe e tralálá...Ela tem um jeitão bem moleca. Ao contrário de uma branca de neve.
 Na versão original ela vê o príncipe se casando com a mina, morre e vira espuma. E essa é uma alusão a vida real do autor do conto original que era gay e estava apaixonado por um homem que ia se casar.
 Interessante não?
 O mangá, mesmo que com a intenção de usar as personagens como um atrativo visual “a mais” na história sempre souberam construir personagens femininas fortes, interessantes e ativas. A exemplo também cito o gibli e seus filmes fodões, Nausicaa do vale do vento, serviços de entrega da kiki, viagem de chihiro e meu amigo totoro. Todos protagonizados por mulheres.
 Com essa nova onda de possibilidades e novas histórias o números de mulheres lendo quadrinhos aumentou com a chegada do mangá por aqui, o que (acredito) despertou um interesse nelas em fazer quadrinhos.
 Porém como eu disse o clima hostil dos ambientes de quadrinhos não é lá muito receptivo com meninas. Pelo menos quando eu comecei (na vinda dos mangás para cá) já tinha passado um pouco e hoje a coisa esta mais homogenia.
 Mas não raro ainda vejo babaquinhas preconceituosos, até com os coleginhas machinhos que fazem romancezinhos.
 Não que eu seja um exemplo de mente 100% aberta, porém hoje eu sou adepto do não concordo com o que você faz, mas defendo seu pleno direito de fazelo.
 Trocando em miúdos de galinha, já li coisas escritas por mulheres (assim como homens) que são fodas para caralho. Uma boa arte, um roteiro honestíssimo, narrativa boa, e outras coisas que nem tanto.
 Questão de gosto, sim.
 Por isso defendo que cada vez mais mulheres se interessem e produzam quadrinhos, independente de agradar meu gosto pessoal, ou dos outros.
 Só vai lá e faz.
 Costumo pensar assim com musica.
 Gosto de canções cantadas por vozes femininas. Amo umas e outras não suporto.
 Isso significa que a cantora não é boa?
 Não.
 Ela só não me agrada.
 Com quadrinhos é mesma coisa, nós menininhos (e menininhas também) temos que saber olhar o outro lado do muro também para pelo menos nos dar a chance de conhecer algo novo, mesmo que aquilo não nos sirva. Pode não ser a Hq mas sim você que não está maduro o suficiente para digerir o conteúdo, como um livro, ou as vezes o negócio é ruim mesmo e paciência.
 Eu mesmo tenho nojo de super herói marvete/DCnauts/Images/Qualquer outra bosta dessas, são pouquíssimas histórias que me agradam, mas pouquíssimas não quer dizer nenhuma.
 Não estou falando que tudo que mulher faz não me agrada porque sou machinho, isso não é ser macho, é ser idiota. E tem mina que tem preconceito com histórias mais voltadas ao publico feminino que eu sei.
 Defendo que mais minas façam quadrinhos, porque muitos dos meninos já não tem tanto assim mais a dizer e elas tem uma chance de nos mostrar algo novo, um ponto de vista diferente ou só pelo prazer de contar o que elas queiram contar.
 E quanto a inclusão para quem acha que ser inclusivo com as mulheres em premiações, filmes e hq´s é uma cota, por hora pode até ser, mas é um meio de equiparar a balança até que todos tenhamos as mesmas chances de concorrer de igual para igual  pois acredito que o essencial é não nos tratarmos como X ou Y mas sim como humanos antes de tudo.
 Todos temos possibilidade de contar boas histórias se nos esforçarmos em contar o que quer que seja. O que temos no meio das pernas não nos faz mais ou menos especiais, somos autores e não raças de planetas distintos.
 E até que esse dia chegue vamos abrir espaço para os menores irem se firmando.

 E meninas, sejam bem vindas a selva.