quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Conheça nossa cozinha #35 - Mundo comum.

 Ta aí um recurso usado em praticamente todos os filmes.
 É simples, é básico e funciona bem.
 Um exemplo de mundo comum “O policial Pereira é um tira, vive com sua mulher e filhos em uma casa no subúrbio, nada é mais importante para ele que a família.”
 Seguindo a formula da jornada do herói o próximo passo é tirar nosso personagem deste mundo comum, então bandidos da máfia russa invadem sua casa matam sua mulher e ele é acusado pelo crime agora tem que provar sua inocência para reaver a guarda de seus filhos e ter sua vingança.
  Esse é o plot de um dos filmes do Steven Seagall. É simples, mas milhões de histórias seguem essa fórmula.
 O cara ta de boa no mundinho (vidinha) dele e vem alguma coisa que tira ele daquele mundinho e ele passa a história tentando fazer as coisas voltarem ao que eram no começo. Ou no caso o mais próximo disso. Afinal o cara não vai ressuscitar a mulher dele, mas a vingança é como fazer o assassino pagar com a mesma moeda. Sangue por sangue.
 Agora supondo que em vez da mulher do policial pereira fosse um anônimo qualquer assassinado pelo traficante russo.
 Ia ter o mesmo peso emocional?
 Se o roteiro não criasse algum vinculo emocional entre os personagens (o policial e a vitima) não teria peso emocional nenhum. Seria só mais um caso no dia do policial pereira.
 Outra saída poderia ser ligar o Policial emocionalmente ao vilão, que é seu ex parceiro ou um irmão.
 O mundo comum não se refere necessariamente ao local, mas sim ao que todos conhecemos.
 Nesse caso a ligação emocional com outro ser humano (mulher, filhos, família) é algo comum a todo ser humano. Isso é um recurso de mundo comum para criar empatia com o leitor.
 Quando penso por exemplo em Dexter, que é um serial Killer.
 Ele não tem capacidade de sentir emoções, ou seja ele não cria vínculos emocionais com outros seres, mas nem por isso essas sensações deixam de estar presentes no contexto pela falta deles. Nós sentimos empatia por que nos colocamos no lugar dele imaginando como seria ruim não ter sentimentos.
 N outras história usam esse mesmo recurso.
 Pro exemplo um filme chamado o doador de memórias, onde o plot é uma sociedade utópica que superou todos os males e diferenças vive em uma colônia onde a vida é “teoricamente” perfeita. Sem dor, sem tristeza, sem doenças e sem diferenças. Todos estão no mesmo pé de igualdade. Porém para isso eles abriram mão de outros sentimentos, como amor, contato humano, as próprias diferenças e outros fatores que causam a inveja e a discordância entre os seres humanos.
 E em certo ponto do filme é revelado que um cara tem guardadas as memórias de tempos anteriores aos atuais. De imediato você cria simpatia com ele. Porque ele está no nosso mundo comum. Até nesse mundo sendo podre sabemos que a utopia que se passa no filme seria ainda pior. E o roteiro consegue evocar esse nosso lado humano com muita força. Nos colocando a favor do herói que quer destruir a sociedade perfeita, sendo que o normal seria o contrário.
 Em suma da pra contar qualquer tipo de história com qualquer um desde que você convença o seu público que as razões pelas quais o seu personagem luta criem empatia com o leitor. Do tipo “no lugar dele eu faria igual”.
 Desse modo sem perceber acabamos defendendo assassinatos, roubos e outras atitudes que vão contra a moral comum.
 Tudo porque aquele cara ali na história nos convence que o motivo dele é justo.

 E um meio de fazer é usando o mundo comum.