quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Conheça nossa cozinha #35 - Da pra ganhar dinheiro com isso?

 Da pra ganhar dinheiro com isso?
 Essa é a pergunta que todo mundo faz, principalmente para quem é artista.
 Ninguém questiona o cara que trabalha entregando folheto ou o fulano que liga na sua casa enchendo o saco pra te vender cartão ou o cara que ta na áfrica salvando vidas como voluntário.
 Afinal quem precisa de arte?
 Uma das fases mais divertidas da vida é a infância, quando a gente não tem obrigação de nada. Só de ser criança e se divertir. Acredito que essa deveria ser a essência da vida.
 Mas desde que entramos na escola sentimos o peso da responsabilidade.
 Porque somos vistos como investimento. Afinal criar um filho custa caro e ninguém quer que algo que consome tanto tempo, dinheiro e dedicação dê errado não é?
 Até que chega aquela hora que você anuncia para seu provedor financeiro que vai fazer quadrinhos e não vai virar advogado.
 Mesmo nos dias de hoje que todo mundo se declara moderno, livre dos preconceitos e afins ter uma profissão que não tem retorno financeiro certo é motivo de preocupação e piada.
 Você estuda anos, aprimora sua técnica de desenho todos os dias para ouvir de um joãozinho faz bico que isso não da futuro. Não desmerecendo qualquer profissão que seja todas são necessárias. Menos atendente de fast food. Porque fast food não serve pra nada.
 A grande questão é que nem tudo na vida é dinheiro.
 Arte é algo que é natural do ser humano.
 Não tem dar certo em arte.
 Só porque fulaninho vende quadro a milhões não significa que ele seja bom.
 Acredito que arte seja muito mais o processo que o resultado.
 Quando eu desenho uma tira sim, eu penso nos leitores. Mas antes de tudo eu penso em me divertir com o processo.
 Desenho, quadrinhos, são coisas que eu faço não só porque quero viver disso (Quando eu puder vai ser muito bom claro) mas também porque é algo da minha própria natureza, eu faço quadrinho porque é legal, não porque fulaninho lê ou ciclaninho é fã. Isso incentiva claro, mas muitos tropeçam numa armadilha perigosa que é o ego.
 O cara produz só para agradar a patota de fãs dele, ou se torna puramente técnico só para atender demanda de serviço. Nisso ele fica estagnado e perde o prazer de experimentar e até de dar errado. Porque o fracasso faz parte de experimentar.
 Praticamente ninguém acerta de primeira. E se acerta se limita a fazer aquilo pelo resto da vida sem se arriscar em coisas novas com medo de errar.
 Lendo o mangá Bakuman pela segunda vez eu estou tendo percepções completamente diferentes dos personagens.
 Se você já leu vai entender, se não aconselho ao menos conhecer a obra.
 Os personagens principais crescem na série basicamente pelos fracassos que tiveram no decorrer da história. Eles partem de um estilo de história próprio e se aventuram em outros estilos diferentes para no final voltarem ao estilo de história inicial.
 - Ai que perda de tempo. Certo foi Nizuma (personagem rival e super gênio dos quadrinhos) que fez o que queria desde o começo!
 Todos os caminhos são validos.
 E mesmo achando o Nizuma o personagem mais foda da história, eu vejo que o caminho dos personagens principais foi mais enriquecedor.
 Tanto que o Nizuma não é bem aceito quando se arrisca fazendo uma história de romance. Mas ele teve o mérito de arriscar e se divertir com isso.
 Porém os personagens principais ficam apegados a fazer sucesso a todo custo e só vão se considerar magakás de verdade quando viverem disso o resto da vida.

 E o Nizuma não está nem aí. Ele curte o que está fazendo e como prova disso desenha até nas horas vagas para se divertir.
 Em termos práticos, se você desenhar cadeiras todos os dias, você vai se tornar um ótimo desenhista de cadeiras, porém quando você for fazer mesas depois de anos desenhando só cadeiras, sua mesa vai sair torta e vai ficar estranha ao lado das cadeiras.
 Muito fulaninho que faz retrato de 6b e manja muito de rosto e mãos, mas não sabe desenhar o resto do corpo porque fica limitado a fazer rostos.
 Porque?
 Porque ninguém quer ver o seu processo de estudo desenhando cotovelos. Quem ia se interessar por um cotovelo ao lado de um rosto todo bem acabado?
 Porém quando você vê um desenho com o cotovelo torto é a primeira coisa que você repara. Mesmo o resto estando perfeito.
 Por isso desenhar é basicamente o processo. Ninguém esta nem aí pro seu processo além de você... Quando muito seu professor ou algum colega.
 Mas gente que não tem nada a ver com desenho não liga para esboço de um torso. Eles vão querer ver as obras prontas e não o processo. Assim como quem não toca guitarra não vai se interessar pela técnica do musico. Ele só vai querer ver o cara tocando.
 E é nesse ponto que os desenhistas que vivem de ego se perdem.
 No dia que você desagrada seu publico você ta ralado. Vão cair matando em cima de você.
 Já quem desenha mais focado no processo se diverte de qualquer jeito, errando ou acertando. Encara as dificuldades como desafio e evolui como artista.
 Isso serve pra qualquer coisa na vida.
 Afinal quantas milionários aí continuam trabalhando mesmo tendo juntado dinheiro suficiente para viver o resto da vida sem trabalhar?
 Dinheiro é ferramenta e não o caminho.
 E se da pra ganhar dinheiro com quadrinho eu não faço idéia.
 O mais certo é que da pra ganhar dinheiro com dinheiro. Afinal tudo que você for começar vai precisar de investimento. Seja o conhecimento que você pagou para aprender ou a grana que você investe em um projeto.
 Mais importante que isso é se divertir.
 Porque se você quer só ganhar dinheiro existem caminhos bem mais rápidos.
 E satisfação pessoal é uma coisa que dinheiro nenhum paga.
 Porém as contas ele paga, então a gente da um jeito.

 Mesmo que seja virar um joãozinho faz bico.