quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Conheça nossa cozinha #37 - A porra da pagina invertida.

 Uma coisa que eu vejo muito é “mangá” ocidental desenhando com sentido de leitura oriental.
 Acho sem sentido? Com certeza.
 Mas se fosse hoje vai saber se eu estaria embarcando na mesma onda.

“Copio não négo, crio quando aprender.”

 Tudo na vida a gente aprende basicamente copiando.
 Desde que éramos macacos.
 Aprendemos a falar e andar repetindo gestos que nossos pais fazem.
 Poucas coisas são espontâneas por natureza. E ainda sim são porque são necessárias a nossa sobrevivência, como a dor, por exemplo.
 O cara que pintava coisa nas paredes da caverna estava tentando representar uma cópia o mundo real, ou seja só Deus é original nas suas criações... Ou não. Porque o humano segundo foi dito é sua imagem e semelhança, ou seja, é uma cópia do papai/mamãe do céu.
 Iniciados nos quadrinhos não começam de forma diferente ou por mero acaso.
 Os primeiros quadrinhos são filhos da literatura e da arte que por sua vez são filhos de outras linguagens anteriores e por ai vai até chegar a raiz que é expressar um sentimento, uma idéia. Ou preencher o tempo livre com alguma coisa que não fosse sobrevivência (comer, não morrer e se reproduzir).
 Partindo do principio que somos apenas cópias ou versões melhoradas dos macacos, nada se cria do nada.
 Eu mesmo relendo coisas antigas consigo ver minha principal raiz no quadrinho que é a televisão.
 Até a forma de quadrinizar as paginas era muito similar a um story board de filme. Quadros estáticos e seqüenciais. Uma janelinha estática como um palco aonde as ações iam acontecendo como dentro de uma televisãozinha. Não haviam quadros vazados, variação na forma ou no tamanho do requadro, eram todos idênticos.
 O texto e os balões eram a forma de emular o som daquela pequena televisão.
 E isso só começou a quebrar um pouco quando comecei a produzir quadrinhos em grupo.
 Meu parceiro de produção da época era iniciado no mundo dos comics e claramente tinha mais técnica. Usava requadros diferentes, ângulos, fazia coisas no formato tira. E minhas janelinhas ficavam estáticas e sem graça ao lado de paginas com mais cara de quadrinhos.
  Resultado? Acabei absorvendo muito do estilo dele para o meu. Quebrando alguns requadros, variando o tamanho deles e saindo do formato janelinha.
 Nesse estagio eu fui muito feliz de já pegar a coisa mais mastigada porque quando eu comecei a ler mangá eu já entendia um pouco porque não fazer uma história no sentido inverso (apesar de que Ranma ½ era espelhado na época) e alguns recursos visuais que não estão lá por um acaso.
 E se eu começasse lendo comics? Seria do mesmo jeito. Quem faz quadrinhos tende a beber mais de quadrinhos do que de outras linguagens.
 Eu tenho muito mais influencia de literatura, porque li muito quando era juvenil.
 E tenho amigos hoje que só leram comics a vida inteira e seguem o marvet way a risca, então não é de se espantar que um cara que só leia mangás vai querer fazer o negócio igual o japonês. Com leitura invertida e tudo.
 Afinal a graça da coisa está em experimentar e às vezes dar errado pra aprender.
 O que é ruim é quem quer impor isso como um padrão ou falar que mangá feito no Brasil não é mangá. Sendo que boa parte dos comics são desenhandos por brasileiros, e isso não torna eles menos americanos.
 Depois de já ter errado muito, acertado um pouco e experimentado bastante entendo que o que vale é não se limitar a um estilo, gosto ou gênero de história. Não digo só como autor, mas como leitor também.
 Não acho que seja possível você criar histórias de um gênero que sejam interessantes só consumindo coisas daquele gênero. No máximo você só vai estar recontando as mesmas idéias com uma nova roupagem.
 Afinal o mundo ta cheio de supinhos e narutões para provar isso.
 Um autor não vive só de um gênero, histórias são um copilado de cópias e influências que a gente junta e recria como algo nosso.
 E tipo receita de bolo, você não precisa inventar a farinha de novo. Mas existem bolos que não usam ovos ou leite na receita.
 Por isso nunca deixe o ardor de fã falar mais alto do que o autor.
 Como autor você vai sempre estar buscando criar algo seu, mesmo que a base seja de outras coisas.
 Como fã você pode se limitar a fazer algo que gosta e que é só uma sombra das suas influencias, inclusive fazer mangá com leitura invertida.

 Sem nem saber o porque.