quarta-feira, 2 de março de 2016

Conheça nossa cozinha #38 - Conflitos

  Valdir Pereira tinha duas opções:
 Enfrentar o demônio ou sair correndo para casa e ir assistir ao chaves enquanto tomava o café da tarde.
 - Eu já vi todos os episódios – pensou enquanto adentrava o quintal de dona Silvana a procura da portinha para o inferno. Que por sinal ficava escondida embaixo do botijão de gás.

 Conflitos

 O elemento chave para se criar histórias é o conflito. Exceções existem. Porém acredito que uma história sem conflitos tende a ficar monótona ou um tanto contemplativa.
 Sendo grosseiro, é a diferença entre filme pornô e romance.
 No romance o casal passa por vários conflitos até ficar junto no final. Ou ficam juntos, mas existem os conflitos individuais, familiares, a distancia, o vilão que seqüestra a moça, uma ou um amante que leva um dos dois a traição, enfim, uma série de artifícios que não deixam a objetivo do filme se concretizar, seja ele qual for. No caso ambos satisfeitos com uma relação a dois.
 Por exemplo, o Julio gosta da Beatriz, afinal ela é linda, loira, gostosa, divertida, faz aquela carinha manhosa que deixa os homens loucos, por isso mesmo ela é bastante popular entre eles inclusive com Pedro. Que ao contrario de Julio, é um galã de meia idade com cabelos grisalhos e tudo.
 Beatriz ama Julio, mas as investidas de Pedro e um mal entendido com Julio a fazem consumar a traição e depois se arrepender. Como ela vai lidar com a culpa? Como Julio ira reagir ao saber? Pedro vai comer coxinha no almoço? Enfim... Um conflito bobo já gerou um monte de possibilidades de se contar uma história e já deixou o espectador curioso para saber como esse conflito vai se resolver.
 Agora se fosse filme pornô.
 Julio e Beatriz, homem e mulher, trepam, trepam na cozinha, trepam no carro, trepam na escada, trepam com outra atriz... E por aí vai. É um filme puramente contemplativo. O máximo que o telespectador vai fazer é... Isso aí que você pensou. Não tem envolvimento emocional com a vida do personagem, você é a terceira pessoa ali na cena. Como se fosse o câmera.
- Opa, não precisa parar não. Eu fico só assistindo aqui quietinho.
 Agora que já sabemos o que é o conflito temos que saber como soluciona-lo.
 É muito comum se deixar levar pela trama e criar acontecimentos e acontecimentos até perder o controle de como resolver tudo isso e fazer aquele final sonho ou sem sentido só pra resolver tudo de uma vez.
 Quem lê mangá sabe do que eu to falando.
 Juninho foi a padaria comprar pão para a mãe, no caminho é seqüestrado por alienígenas e vai parar no planeta Zórk. Lá vive altas aventuras conhece uma alienígena gostosa casa com ela e decide ficar por lá mesmo o resto da vida.
 Fim.
 Ta, mas e mãe do Juninho? Vai ficar esperando o pão? Vai procurar o filho incansavelmente até morrer acreditando que ele ainda está vivo em algum lugar?
 Ah mas Juninho não tem meios para voltar para casa ou se comunicar com a mãe! Ta, então como os aliens foram até Americanópolis? Ele pode ir buscar sua mãe para morar com ele, mas a mulher disse que não quer morar perto da sogra e como bom homem que é ele abaixa a cabeça e obedece.
 Se você conseguir contar uma história com personagens tão bem resolvidos dessa forma, sem todas essas questões que eu levantei você é um gênio. Porque não se espera de uma mãe que ela fique de boa enquanto o filho some no caminho da padaria que fica ali na esquina. Levaria um bom tempo até ela aceitar que seu Juninho não voltará mais para casa.
 Uma solução?
 Juninho sofre de perda de memória e ao encontrar os aliens ele lembra de sua verdadeira natureza e a aceita sem questionar porque esqueceu de tudo que viveu na Terra.
 Ok.
 Mas e a mãe do infeliz?
A única forma de não ter que resolver a situação dela é ela não estar na história em momento algum.
 A menos que Juninho viva isolado do mundo e não tenha amigos, aí ninguém vai sentir falta do infeliz.
 Percebeu que o que falta da história já está nas próprias perguntas?
 Muitas vezes a gente vai escrevendo a torto e a direito sem lembrar que outras pessoas vão ler e que elas não tem a obrigação de completar o que falta na história, afinal pior que uma história fraca, é uma história que o leitor não entende.
 E não precisa ser algo putamente complexo, uma informação simples revelada no tempo certo da história pode fazer a audiência vibrar e eternizar sua história.
 É só lembrar de “Eu sou seu pai”.
 Por isso se você não sabe fazer algo complexo, vai pelo básico mesmo, porque o básico se for bem contado satisfaz a audiência.

 Ou faz tipo filme pornô, splash page, puta traço, cor, capa dura, só pra contemplação, tem quem goste, e não são poucos.