quarta-feira, 16 de março de 2016

Conheça nossa cozinha #40 - A piada de salão

 Tem um episódio da série malditos cartunistas que fala sobre isso e por alguma razão eu me identifico muito.
 Salão de humor é como a loteria do quadrinho, em vez de pagar um pouquinho para cada participante eles juntam o valor e dão em forma de prêmio para os “melhores” de cada categoria.
 Eu já participei de vários salões e mostras, inclusive sendo premiado uma ou duas vezes.
 Me pergunto se foi sorte, acaso, ou se eu era o menos pior. Porque eu não sigo o padrão da terrível PIADA DE SALÃO.
 Piada de salão é a coisa mais sem sal que existe, salvo algumas raras exceções é aquela piadinha sem texto de quadro único e que tem um contexto mais trágico do que cômico.
 99% das piadas de salão estão relacionadas a desgraça (ai se a turminha do mimimi descobre) com um tom acido ou criticando alguma coisa, tipo uma que eu vi que é de um indiozinho nu no meio da selva feliz e no quadro seguinte ele está em uma cidade, completamente vestido, na camiseta tem a estampa da floresta e ele está triste. Eu não vou colocar a obra aqui pra não queimar o filme alheio, mas aonde que isso é engraçado? Isso me fez ficar com pena do indiozinho, não achar graça.
 - Ah! Mas você não entendeu a ironia da piada.
 Eu não vi foi é graça mesmo.
 Porém aí entra na questão de gosto, fazer o que.
 Outro ponto é a técnica.
 Eu sou um quadrinista da geração digital e quando eu comecei o digital era banido de salões e festivais de humor. E até hoje você tem que fazer um trampo pelo menos duas vezes melhor do que o cara que faz na tinta porque ainda existe preconceito com coisas coloridas de forma simples no computador. Então é muito comum ver uns 50 caras fazendo o trabalho médio em aquerela e um ou dois fazendo digital com uma puta qualidade em salões.
 A caricatura.
 Uma categoria obrigatória em salão é caricatura, legal, mas o que tem de engraçado? No máximo é uma coisa interessante... E que eu não vejo graça. Aquele puta desenho coloridamente fudido todo retorcido de algum famosinho é legalzinho, não me arranca gargalhadas. Porém todo mundo ama então acho que entra no gosto pessoal novamente.
 Acho que estou bancando o chato aqui.
 O cartum.
 Cartum não é piada, é uma piadinha. É legalzinho, mas são poucos que fazem você realmente se divertir e na média você da aquele sorrisinho de canto de boca quando vê um interessante.
 A tira.
 Tira eu gosto, não négo e vou puxar a sardinha.
 É um formato de piada que eu acho ilimitado. O que eu não gosto é daqueles desenho todo troncho na tentativa de ser engraçado só para enautecer a piada. O que vale na tira é basicamente a idéia, porém o quesito arte conta muito no julgamento dos jurados então é melhor o autor caprichar na arte. E fazer umas 50 enquanto o cara da caricatura ganha 10 mil com uma arte. UMA! SÓ UMA CARICATURA!
 Porque tira é linha de produção, ninguém lembra que exige técnica para você contar uma piada em 3 quadrinhos, quanto mais fazer 4 tiras em uma prancha de a3 e 4 pranchas de tiras o que da um total de 16 idéias, todas tendo que ser igualmente engraçadas contra UM CARTUM e UMA CARICATURA.
 E se possível faça com aquarela porque a aquarela é um dos pilares da sociedade atual, juntamente com o fogo, o sexo e os seriados japoneses (abraço Ronald Rios).
 Ah é, e tem o maldito do cartaz do salão com o palhaço.
 Metade dos autores das obras do salão são tiozinhos barbados que ficam em casa isolados do mundo e tomam cerveja. Não tem nenhum palhaço ali. Eu sei, eu sei, palhaço simboliza a alegria e o bom humor. Torta na cara para você também!
 Agora falando sério o humor é o estilo mais difícil de dominar, porque o que é engraçado para você pode não ser engraçado para mais ninguém no universo e vice versa. Vide meu caso com caricaturas. Eu não vejo graça, mas o povo ama. Principalmente quando é de graça... Mas enfim.
 Eu acho realmente um mérito que existam tantos salões de humor pelo mundo a fora e que as pessoas se arrisquem a contar piadas no papel. A questão é que praticamente ninguém entra em um salão de humor pela vontade de fazer graça, entra pra ganhar.
 Não tem segredo, o que interessa ali é o dinheiro, o troféuzinho fica na prateleira pegando poeira, já o dinheiro a gente usa para alguma coisa. Então a tendência a produzir algo que esteja na média ou ao agrado dos jurados/público é maior do que a vontade de arriscar algo novo sabendo que a chance de não ganhar é bem maior.
 É valido? É.
 Porém quando você perde a sua autenticidade é difícil recupera-la e muito autor se limita a isso e fica contando piadinha na média pra conseguir colocar comida dentro de casa.
 - Agora você está sendo radical!

 Sim, todos temos contas a pagar isso não é segredo, mas quem vive só pra isso e reclama que não quer trabalhar com o que não gosta e agora se vende fazendo arte que não gosta o tempo inteiro e fica estagnado nisso está sendo no mínimo incoerente.