quarta-feira, 23 de março de 2016

Conheça nossa cozinha #41 - Porque contar histórias?

 É algo que eu penso com freqüência.
 Não digo pelo fator financeiro, mas pelo fator essência, por aquilo que nos faz continuar mesmo sem ganhar um puto com isso.
 Porque alguém como um youtuber fica de frente pra câmera e fala alguma coisa independente de ter algum retorno com isso? Ou escritores escrevem para ninguém ler? Ou desenhos que a gente faz pra gente mesmo e guarda numa gaveta?
 Porque temos essa necessidade de nos expressar?
 Olhando com os olhos do mundo e baseado nos princípios básicos do instinto humano (sobrevivência e perpetuação da espécie) isso realmente parece algo inútil a primeira vista.
 Afinal não é algo que tem retorno financeiro ou te faz comer ninguém.
 Se bem que da pra ganhar dinheiro e xaveco não passa da arte de contar historinha.
  As pessoas que a maior parte da vida só trabalham pensando no mundo somente com o lado financeiro também vão a cinema, lêem livros, assistem televisão. E é aí que a criatividade entra na vida deles.
 Mesmo ator/escritor/artista/musico sendo profissão de vagabundo ninguém gosta de ficar sem seu filminho ou vive sem musica.
 Eu como todos, sei como é um saco ir trabalhar todos os dias cumprindo uma função quase mecânica para atender os caprichos de um cliente para gerar lucro para o seu patrão para que no fim do mês você ganhe uma fatia do lucro dele.
 Isso é muito chato.
 Tem que goste, eu sei, mas ninguém é de ferro.
 Todo ser humano precisa fugir um pouco da rotina e esquecer o mundo nem que seja por uns instantes.
 Adentrar uma aventura, rir, chorar, falar palavrão, provar um pouco de sexo que não seja só o seu. Mas nossa rotina casa, trabalho, faculdade, cama nem sempre permite isso.
 Afinal na vida representamos papeis monótonos na maior parte do tempo.
 Duvida?
 Repare em como as pessoas se apresentam pelas profissões.
- Eu sou Juliano da Silva, sou mecânico torneiro.
- Eu sou Roberta Guimarães e sou publicitária.
 Acredito que seja porque as pessoas estejam tão prezas a esse papel que não conseguem se definir de outra forma, elas fazem esse papel na maior parte do tempo, a vida inteira que acabam se definindo como isso.
 Ninguém se apresenta falando coisa do tipo:
- Eu sou Diana e gosto de sorrir.
 Incrivelmente se alguém falar assim vão achar que a moça é hippie e da um tapa na erva, mas enfim.
 É humanamente impossível definir quem somos de verdade.
 Por isso esse padrãozinho da nossa querida humanidade nos permite ter um discurso pronto, então não vamos ir contra para não passar vergonha no primeiro dia de aula.
 Porém nosso amigo Juliano da Silva não é mecânico torneiro em tempo integral, ele tem uma série de outras qualidades além dessa. Mas é difícil sair da caixinha do respeitável senhor de 40 anos que trabalha de segunda a sábado, joga bola com os amigos da firma aos domingos e tem uma filha que já é casada.
 Como Juliano poderia sair dessa sua casca?
 Fazer um curso de teatro? Talvez.
 Dança contemporânea? Porque não?
 Pintar quadros pra vender na feirinha Hippie? Vai saber.
 Tudo isso demanda tempo e esforço, coisa que não cabe na rotina de pessoas comuns como ele.
 Afinal ele não tem necessidade de outra ocupação que não seja sua profissão que lhe paga com folga as contas todo mês.
 Porém Juliano tem uma particularidade que é o gosto por filmes.
 Algumas noites por semana ele sempre tira um tempo para curtir um bom filme. Viver aventuras, romance, acompanhar os pequenos dramas de personagens inventados na cabeça de algum roteirista, ver os caras sentando pipoco em tudo sem motivo.
 E é aí que os contadores de histórias entram na vida de Juliano.
 Uma pessoa comum que vive seus dias de forma mecânica pode ter muito a dizer sobre a sua vida, sobre os amigos, sobre os medos internos, sobre qualquer assunto. Afinal histórias (mesmo as grandes odisséias) são construídas a partir de coisas comuns e com emoções básicas que todo o ser humano possui.
 Juliano como já foi dito se dedica a outro oficio que é o de mecânico torneiro. Ele faz peças para maquinas. E por mais que tenha uma infinidade de coisas para contar ele não tem o que eu como contador de histórias tenho, que é a manha, o jeito, o paranauê, o esquema de contar uma história.
 Claro que ele é muito melhor que eu em usar o torno para usinar uma peça, ele praticou muito isso, ao passo que eu pratico a contação de histórias todos os dias.
 Ambos aplicamos o tempo evoluindo habilidades diferentes, porém complementares. O programa em que eu escrevo esse texto foi pensando por alguém. A lâmpada que ilumina o quarto em que eu estou foi pensada por alguém e passou por uma infinidade de mãos até chegar a mim.
 Por isso eu não desvalorizo profissões, todas tem seu papel na sociedade. Inclusive a nossa de fazer quadrinhos.
 Rendendo lucro ou não, é essencial.
 Imagine um mundo sem música, sem filmes, sem quadrinhos, sem ficcção.
 Ia ser uma monotonia só.
 Todos trabalhando como maquininhas executando sua função, voltando para casa e vivendo aquilo o tempo todo, todos os dias, até morrer.
  Através da ficção podemos abordar vários temas, transmitir sensações e emoções para outras pessoas que nunca nos conheceram ou nos conheceram em vida.
 Quando eu faço uma tira por exemplo, eu estou transmitindo minha alegria para outra pessoa. Ou estou transmitindo fúria, prazer, nojo, piedade, angustia, felicidade, dor, enfim. As histórias tem essa capacidade de nos fazer sentir coisas que muitas vezes não estão presentes no nosso dia a dia.
 Tanto que nos identificamos com elas o tempo inteiro.
 Os arquétipos ou estereótipos presentes nas histórias são os mesmos com o quais convivemos, a mulher inalcançável, o chefe tirano, o amigo bobo estão presentes na nossa vida também.
 A ficção é tão importante pra existência humana que sem ela nós nem ao menos sonharíamos.
 No fim é tudo uma grande mentira? É.
 É uma válvula de escape da realidade? Sim.
 Podemos viver isso? Talvez.

 Mas que ia ser chato ia.