quarta-feira, 6 de abril de 2016

Conheça nossa cozinha #42 - A porra do personagem

 Tenho dificuldade em criar histórias baseadas diretamente em personagens.
 Costumo criar histórias baseadas em acontecimentos e situações para depois decidir quem e como serão os personagens.
  Sempre que faço cursos de quadrinhos me deparo com o tópico criação de personagens, pois o método mais comum é criar um personagem e contar coisas sobre ele.
 O contrario do que eu faço.
 Nisso eu sempre me deparo com a mesma dificuldade que é definir quem é meu personagem.
 Em uma dessas ocasiões descobri que meus personagens podem ser rasos por só servirem ao propósito a que foram criados, no caso a situação na qual eu os coloco.
 O que nem sempre funciona.

Personagens

 Como eu disse não costumo criar personagens antes de eles terem uma função definida na história.
 E eu abuso dos estereótipos.
 Isso devesse a praticidade e a liberdade/controle que isso me dá ao compor uma história.
 Como meu personagem age só por conta dos acontecimentos da história eu tenho total liberdade/controle sobre quais atitudes ele vai tomar ou não quando encontrar um obstáculo independente de quem ele seja. Eles dificilmente entram em conflito com a minha vontade porque eles fazem o que eu mando não o que eles querem ou o que a personalidade/limitações psicológicas deles permitem eles fazerem.
 Para histórias curtas e no humor isso funciona muito bem, porque os personagens precisam ser manjados logo de cara e não tem muito espaço para desenvolve-los ou apresenta-los ao leitor. Em uma história de quatro páginas não da pra criar algo muito dramático sem apelar pro estereotipo.
 Por exemplo:
 Ele mata velinhas a pauladas.
 Em uma frase apresentei um personagem.
 Nem um de nós sabe de onde ele vem, quais são suas crenças, seus traumas de infância ou ainda mais os motivos pelo qual ele mata velinhas. Só sabemos que ele mata velinhas a pauladas. O que o define como um mau caráter. Afinal velinhas são indefesas e inocentes.
 Agora se:
 Ele mata velinhas a pauladas, porque na verdade elas são bruxas e estão fazendo rituais satânicos com filhotinhos de cachorros que são queimados vivos em uma fogueira toda sexta feira a noite! E ele as mata a pauladas porque bruxas são resistentes a metal como o de armas de corte como facas e espadas. O único jeito de mata-las é ateando fogo nelas ou na base da paulada.
 O sujeito agora passa de vilão a herói.
 Mas se:
Ele mata velinhas a pauladas, porque na verdade elas são bruxas e estão fazendo rituais satânicos com filhotinhos de cachorros que são queimados vivos em uma fogueira toda sexta feira a noite! E ele as mata a pauladas porque bruxas são resistentes a metal como o de armas de corte como facas e espadas. O único jeito de mata-las é ateando fogo nelas ou na base da paulada.
 Isso foi o que disse o assassino de velinhas para justificar seus crimes para o repórter da televisão.
 Ele realmente não prestava.
 Isso para histórias curtas funciona muito bem, pois eu só preciso do personagem como muleta e não como alicerce. No caso do assassino aí de cima ele extremamente genérico e com pouca informação eu te convenci que ele era um justiceiro e depois voltei a torna-lo assassino.
 Essa é uma grande vantagem de histórias que não dependem de personagem. Como a figura do príncipe, ou do jedi. O sujeito bom, incorruptível, que vai agir mais ou menos da mesma forma que todos os outros da sua classe e etc. Ele não é um personagem, ele é um estereotipo. Isso é muito comum em filmes em que o universo/contexto é mais importante que os personagens.
 Agora se eu te apresento um Paulo da Silva.
 Quem é esse aí?
 A menos que você conheça alguém com esse nome não da pra saber.
 O Paulo da Silva tem que ser construído para te causar algum interesse.
 Paulo da Silva é um sujeito tímido, tem poucos amigos, gosta de jogar vídeo game e sempre foi bom com estratégias. Está com 23 anos nunca ficou com ninguém.
 Ok. É um zé ninguém.
 Porém agora vamos inserir Paulo em um universo/contexto de apocalipse zumbi:
 Ele vai sair matando todos os zumbis a tiros de metralhadora sem remorso como um verdadeiro guerreiro, vai passar correndo por hordas de zumbis como um atleta e vai se tornar o líder da resistência guiando a humanidade para a vitória contra o zumbis e no final ainda pegar a gostosa e casar com ela!
 Nem fudendo.
 O cara é tímido, gordo e tem dificuldade em lidar com as pessoas. O máximo que ele vai fazer é usar suas habilidades em estratégia para conseguir comida e evitar o máximo de zumbis antes de ser devorado ou morrer de fome. Ou quando muito vai ser resgatado por um grupo de sobreviventes e o convívio social vai fazer com que ele tenha que lidar com as suas limitações de alguma forma se não ele prejudica o grupo.
 Viu como as características do personagem afetam na história?
 - Ta, mas e no caso do superuman que não tem fraqueza?
  Errado.
 A fraqueza do superuman é justamente a força dele.
 Mesmo ele sendo over power isso tem conseqüências na vida dele e as boas histórias dele são construídas com ele lidando com essas conseqüências. Como, por exemplo, com relacionamento. A mina dele é alvo o tempo todo dos vilões, ele tem se segurar para pegar ela se não explode a mina e por aí vai.
 (Isso falando do que eu conheço do personagem e ignorando as mil variantes)
 Isso é mais comum no comics e mangás porque os personagens são marcas e como tal eles é que vendem o produto, então a história serve a eles. O gocú mesmo foi enfiado em DBZ a todo custo mesmo o autor querendo descartá-lo.
 Criar personagens antes ou junto com a história é um bom trunfo porque te ajuda a limitar suas escolhas. Por mais que ter liberdade seja bom o que torna uma história interessante são as limitações, porque são com elas que o personagem vai lidar e com elas que o leitor vai se identificar.
 Quantos filmes de “o cara que não pega ninguém” existem contra filmes de caras que pegam geral e vivem a vida numa boa sem que nada ruim aconteça? Mil contra 1.  Quantas histórias são contadas com personagens extremamente bem resolvidos com seus conflitos e são razas? Um monte.
 Canso de ver cópias de superuman com toda a foderisse do mundo, mas é só um cara forte. Nada mais que isso. Ele é foda, pronto, salvou o dia, cabou.
 Como o próprio superuman e uma leva de personagens era nos anos de ouro.
 Não da pra levar a sério isso.
 Salvo se é desenho de criança, porém até os desenhos infantis estão ganhando complexidade ultimamente. Basta ver alguns filmes de animação como o divertidamente. Aquele filme é putamente simples, clichê, mas mexe com as emoções dos adultos.
 São bem poucas as histórias que se resolvem com personagens sem limitações ou conflitos internos, nem os vilões são completos por si sós.
 O megamente, por exemplo, domina a cidade canta vitória e depois de um tempo enche o saco e da um jeito de criar um novo rival.
  Algum conflito é necessário para que a história tenha algo pra resolver. E um caminho fácil para criar conflito é trabalhando as limitações e falhas dos personagens além de suas qualidades e como eles lidam com isso neles e com as limitações dos outros.
 Se não você pode cair em uma armadilha do personagem que é bom em tudo, mas tão bom que ele chega a ser antipático por não ter falhas.
 É tipo o filho da sua vizinha que sua mãe sempre te compara. O moleque é tão bonzinho e tão educado que chega a dar medo. É o contrario do que se espera de uma criança catarrenta.
 É desinteressante e vazio.
 Salvo no humor eu acho que é praticamente impossível criar profundidade com algo sem personagem com personalidade. Se bem que até humor com sua simplicidade tem um nível de personalidade.
 Pensando personagens vazios não tem muita serventia para serem personagens principais. Nos filmes até os robôs evoluem e superam o fato de não terem a capacidade de sentir nada, como o terminator, por exemplo.
 E eu aprendi isso agora.

 Antes tarde do que nunca.