quarta-feira, 13 de abril de 2016

Conheça nossa cozinha #43 - Mais sobre personagens

 Como temos o costume de produzir a história do começo ao fim sozinhos é mais cômodo confiar na nossa mente para ir contando a história, afinal na nossa cabeça já sabemos tudo sobre a história. Roteiro, personagens, acontecimentos... Só que não.
 Em casos que o trabalho é feito a varias mãos é mais comum o uso de manuais e guias para que todos os artistas consigam fazem um trabalho coeso e com identidade como o de um autor só.
  Para isso filmes e produções tem um diretor que coordena tudo para que o resultado não vire uma completa salada.
 No caso dos quadrinhos de um autor só, temos completo controle sobre aquele pequeno mundo de personagens e suas vidinhas. Em histórias simples ou estereotipadas como eu já disse é mais simples de manter a coerência, o que pega é quando a história não se limita a um evento, mas sim a uma série deles.
 Nesse ponto conhecer bem o personagem ajuda muito e ter guias de desenho e dados ajuda a manter as ações sob as rédeas para que assim consigamos chegar a um desfecho para a história com um final as vezes simples, mas convincente.
 Afinal quantas vezes você já não se perdeu no meio de histórias sem conseguir resolver nada? Sem contar o que você queria contar e pior ainda sem dar um fim descente ou fingir que tudo foi só um sonho ou um dar aquele reboot maroto e começar tudo do zero?
 Eu já passei por isso inúmeras vezes como, por exemplo, uma história que tinha a intenção de explicar a origem de uma série de heróis. São eles Homem batavo, capitão americanópolis e homem fossa. Minha intenção era mostrar que esses três tem uma origem comum por isso o três são tão parecidos.
 Era só fazer isso.
 Hoje eu vejo que é algo simples, é só colocar um pouco de mistério e ir conduzindo eles até a solução do mistério que é a origem de todos (que eles mesmos, assim como o leitor, desconhecem).
 Só que como na época eu tinha mais ousadia do que pratica fui fazendo só pra ver no que dava e não deu outra: A história não resolveu nada depois de umas 50 ou 60 paginas (hoje eu resolvo coisas em uma pagina) e só andou mais para os lado e para trás do que para frente.
 Dois pontos fracos foram que eu não tinha uma linha de eventos e os personagens não estavam muito bem definidos ao ponto de serem tão ou mais interessantes que os eventos da história. Basicamente eu só fui jogando desafios e mais desafios para eles item reagindo até criar uma bola de neve que se resolveu com o final bem curto e grosso, não com um desfecho digno de um seqüência de eventos de 60 paginas com 10 personagens.
 Pra ter uma idéia a proposta principal que era revelar a origem dos personagens ficou para futura parte 2.
 Obvio que aquela época eu era iniciante então não tem como exigir muito, mesmo tendo grandes sagas de alguns heróis aí que acontecem da mesma forma.
 Tipo aquele final sonho que é a coisa mais cagada do mundo.
 Acontece uma catástrofe, o mundo depende do herói ele falha todo mundo morre ele se encontra sozinho como o ultimo sobrevivente e no final foi só um sonho.
 As vezes não é do nosso agrado, mas o personagem tem que lidar com as conseqüências dos eventos assim como nós temos.
 Como o caso do personagem acima seria interessante contar como ele lida com o fato de ser o ultimo humano, até mais do que contar a catástrofe que o levou até essa situação (certeza que tem algum filme com essa premissa) em vez de só contar tudo e ele voltar pra vidinha de merda dele como se nada tivesse ocorrido.
 Uma falha muito comum minha até algum tempo por capricho ou por me apegar ao personagem era criar personagens sem falha de caráter ou evitar fazer com que eles lidem com as conseqüências dos seus atos.
 Isso é ruim porque nos leva a criar vilões que não são de tudo maus ou heróis que são bons até demais, porque a gente tende a evitar colocar o personagem em situações que nos deixem desconfortáveis (assim como com é com pessoas que gostamos na vida real).
 Por isso uma regra básica é entender por mais que gostemos do personagem ele não passa de uma ferramenta e jogar ele sem dó contra qualquer desafio que seja vai faze-lo crescer. Assim como a gente que, como autor, vamos ajuda-lo a resolver o desafio e o leitor que vai enfrentar o desafio junto com o personagem.
 Afinal ninguém se interessa por personagens que fogem dos conflitos o tempo todo, são apáticos e passam a vida toda sendo assim sem que nada aconteça.
 Eles (assim como nós) tem que fazer algo memorável/interessante para que sua história valha a pena ser contada (assim como a nossa), caso contrario você só vai estar expondo o dia a dia do personagem sem nada demais, tipo desenho infantil, que mesmo sempre propõe para o personagem algum desafio por menor que seja como ir a escola ou descobrir uma coisa nova.
 Tem quem goste e até conte histórias dessa forma, pode ser interessante para o autor ou um publico especifico, tipo os amigos dele, mas pra quem nunca te viu na vida ou sabe quem você é, você tem que contar algo que va interessar aquela pessoa. Não é só falar sobre sua vida medíocre ou porque você não come ninguém através de um personagem, e se for fazelo, faça de uma forma interessante.
 Porque funciona.
 Afinal não somos tão diferentes uns dos outros como pensamos.
 Tudo é questão de saber manter o interesse, mas isso é assunto pra outra coluna.

 Agora umas dicas boas para criar personagens interessantes.

 Uma ficha de personagem contem:

 Características psicológicas.
 Cite características do seu personagem, é tímido, é extrovertido, é burro.

 Justifique o porque de cada uma.
 Porque ele é tímido?
 Ninguém nasce de tal jeito, são acontecimentos que vão formando a personalidade de um individuo.
 Ele é tímido porque ele tem dificuldade de se enturmar com os outros garotos que só gostam de futebol e ele prefere ler e viver no seu mundo de fantasias.

 Características físicas.
 A partir das características psicológicas já da pra traçar um tipo de sujeito, não da para um cara tímido ser musculoso. Afinal se ele vive lendo e não gosta de futebol ele não faz exercícios físicos.

 Como lida com as pessoas.
 Sem convívio social ele vai ter fobia de falar em publico e dificilmente vai puxar conversa com alguém até se sentir seguro o suficiente para isso e com o passar dos anos pode até desenvolver uma “segunda personalidade” mais agressiva ou sarcástica que funciona como armadura para lidar com o convívio social.

 Um outro jeito de construir um personagem é fazendo perguntas a ele. Afinal o melhor jeito de saber alguma coisa sobre alguém é perguntando diretamente a ele.
 Isso também ajuda a criar uma premissa de roteiro que pode ser desenvolvido a partir das respostas do seu personagem.

1 - Quem é você? De onde veio?
2 – O que você quer?
3 – Porque você quer?
4 – O que te impede?
6 – O que acontece se você falhar?
7 – Qual é o seu maior medo?

 Se em uma história você resolver todas essas questões já é seu roteiro já está bem fechado.
 Esse é uma fórmula básica de roteiro de superação.
 Alguém (1) quer uma coisa (2 e 3), algo o impede (4), ele reluta em ir atrás da coisa então é forçado a ir no caso de um personagem passivo ou vai atrás no caso de um personagem ativo. Ele encontra obstáculos (4), lida com a possibilidade de falhar e se vê obrigado a desistir (6), passa por uma provação ou reflexão e supera alguma coisa (medo ou complexo) (7) e consegue o que quer.

 Isso tudo não precisa estar visível para o leitor ou exatamente nessa ordem, mas você como autor deve saber e responder essas questões na sua história para que ela fique interessante.
 E sim essa é só uma sugestão, mas no geral não foge muito disso não.
 Existem outros caminhos para se contar histórias e isso também vai depender do que você quer passar para o seu leitor.
 Por isso leia e veja muitos filmes.
 Existem varias maneiras de se contar uma história, por mais que todas sejam muito parecidas.
 E como eu sempre digo você não precisa inventar a farinha de novo para criar um bolo é só variar a receita.

 E a dica mais valiosa de todas, simplicidade é tudo.