quarta-feira, 4 de maio de 2016

Conheça nossa cozinha #44 - Ferramentas

 É comum querermos nos igualar a outros artistas e a outras pessoas no geral. O ser humano é um amontoado de referencias e não tem porque a gente negar nosso passado.
 Seria o mesmo do que querer começar uma nova espécie do zero quando já nascemos adaptados para esse mundo. Seriam milhões de anos de evolução jogados no lixo. Então podemos começar trilhando o caminho aberto por outros no passado, como o desenho acadêmico propõe com seus métodos de medições e proporções que ajudam a gente a alcançar um resultado legal em menos tempo do que se aprendêssemos por conta a vida inteira.
 O ponto é quando a técnica deixa de ser ferramenta e vira muleta.
 Quando eu era mais novo eu enfrentava comparações o tempo inteiro com relação ao meu desenho, bem, e até hoje isso acontece.
 O fulaninho que copia o gocú sempre cai mais no gosto da geral do que você que está tentando criar algo próprio.
 Esse é outro ponto natural do ser humano somos mais facilmente atraídos por algo que nos é familiar do que algo que é completamente novo. Por isso a seguimentação é tão comum nos quadrinhos. Mangá, comics, tiras, etc. Se a gente gosta de um estilo, é quase certo que vamos procurar de algo parecido para a próxima leitura.
 Isso para o autor é um fator limitador.
 Eu mesmo sou escravo do humor.
 Não que eu não goste de fazer humor, o que acontece é que o humor é a solução mais rápida para quase todas as situações, ou seja, é uma saída para a qual eu posso recorrer sem medo de errar.
 Em um quadrinho de luta estilo narutão os personagens expõem argumentos para justificar os golpes mágicos o tempo inteiro e se apenas um não convence o leitor a luta inteira (que dura umas tantas paginas) pode ir por água abaixo por uma coisinha de nada. Assim como o final de um filme de suspense que cria muita expectativa e no final é bobo.
 Já no humor o leitor já espera que as coisas saiam do eixo a qualquer momento, porque o humor tem essa habilidade de quebrar a lógica das coisas sem muita explicação.
 Porém existem horas que a piada não convém e você precisa deixar seu leitor sentir o drama ou o peso de uma ação para que ele sinta o que o personagem está sentindo.
 Não da pra colocar uma piada em uma cena de morte sem mais nem menos. A piada bem como o drama ou o suspense tem que ter uma antecipação para chocar o leitor e não ser jogado de qualquer jeito na história. Porque assim você tira o peso da ação e ela causa menos ou nenhum impacto como você gostaria ou planejou. Assim como uma cena de morte fora de hora ou em excesso como em algumas séries de zumbi aí.
 Os caras abusam da ferramenta até ela ficar banal.
 Matar personagem da audiência? Então vamos matar geral.
 Piada da audiência? Então soca piada no bagulho.
 Nudez da audiência? Taca gente pelada a cada 5 minutos.
 Piada, morte, nudez, são elementos fora da vida comum (porque estamos sempre sérios, vestidos e obviamente vivos) então tem que ser usados na medida certa para surpreender e não para empapuçar o leitor.
 Ferramentas ajudam a gente a contar uma história, mas sozinhas elas não se sustentam.
 Por isso é um caminho arriscado fazer uma história cheia de clichês e que tem tudo o que “todos gostam” (bunda, morte, humor e violência).
 Não que isso não funcione, temos histórias desse gênero a tempos e que as pessoas adoram. O ponto é o quanto sua obra vai resistir ao tempo.
 E a única forma de ela conseguir isso é ser consistente. Ter um algo a mais que os clichês ou piadinhas da semana.
 Só contar nos dedos quantas histórias de super heróis atravessam gerações contra quantas foram descartadas em poucos anos.
 Ou seja, não é só encher de coisa (ferramenta) legal, é saber como e porque usar um prego no lugar do parafuso.

 E não só usar o prego porque ele é mais legal.