quarta-feira, 11 de maio de 2016

Conheça nossa cozinha #45 - Olhar para o próprio desenho

 Admiro quem consegue olhar para o próprio desenho.
 Por vezes a gente passa a vida querendo se igualar ao desenho de outra pessoa e esquece de olhar para o nosso próprio desenho.
 Li o dois irmãos que foi desenhando pelo Gabriel Bá e nisso vi como da pra contar qualquer história sem necessariamente ser um primor do realismo. Não que o desenho do cara seja ruim, longe disso, é expressivo simples e bem bonito, só não é padrão.
 Ainda mais se comparar com as primeiras histórias dele no 10 pãezinhos que era um traço bem menos estilizado e mais comum, nisso eu penso no processo evolutivo dele até porque o irmão Fábio Moon que desenha junto com ele desde sempre e deve ser a maior referencia dele desenha completamente diferente.
 Com o passar dos anos e com o amadurecimento do meu desenho eu sinto como é tão mais legal você ter uma identidade do que ser um genérico de qualquer um desses fodões aí. Não desmereço quem seja, porque isso exige estudo, tempo e trabalho. Até porque quem desenha igual alguém, também desenha (e desenha bem). Não é só cópia.
 Porém a maneira como vemos as coisas com tempo vai mudando e isso interfere diretamente na nossa interpretação das coisas.
 Tipo quando a gente é mais novo e vê aquelas mina tudo tetuda de anime fã service, quando se é mais novo é natural gostar, porque é legal ver.
 Ahhh peitão!
 Só que hoje com 30 anos eu acho esquisito. Porque uns 95% das mulheres reais não são naquele padrão, sem contar que o que me atrai hoje em uma mulher são outros fatores além do tamanho da bunda ou peitos, minha visão é outra. E isso acaba refletindo no meu gosto e jeito de contar histórias.
 Por exemplo, não gosto de usar ou ver cenas mais picantes a não ser que elas tenham alguma tipo de contexto na história.
 Tipo aqueles animes que mostram calcinha o tempo inteiro gratuitamente.
 No caso do dois irmãos, mesmo com um traço simples o Bá consegue passar o sentimento de desejo dos personagens nas poucas cenas de relações sexuais. Não precisa ser tudo com anatomia perfeitinha ou peitões enormes como é em hentai.
 Nisso ando repensando e olhando para o meu desenho e se ele está funcionando para o tipo de história que eu quero contar, não só pelo traço em si, mas também o jeito de contar.
 Em quadrinhos como você conta costuma ser mais importante do que o que você conta.
 Afinal temos N títulos que são muito bons porque tem uma narrativa boa e abordam um tema relativamente simples e por vezes batido, como no caso do dois irmãos (que é tipo uma novela).
 Eu realmente me orgulho e curto o processo de fazer histórias em quadrinhos hoje, mesmo tendo só um ou dois leitores fiéis.
 Porque a graça não está só onde eu cheguei ou quero chegar, em lançar um álbum de luxo com capa dura e ganhar grana em cima disso. Isso é bom e é claro que eu quero isso. Mas o é processo o que mais incentiva.
 Principalmente por ser uma jornada de autoconhecimento.
 Em arte você tem que aprender a se conhecer e se aceitar para melhorar.
 Por exemplo, eu sempre me vi como ilustrador, mas hoje eu vejo como não tenho saco pra ficar fazendo coisa para os outros ou pensando em soluções gráficas como fazem os designers. Minha necessidade, ou vocação artística é outra. Claro que as contas às vezes falam mais alto, porém isso é outro assunto...
 E eu considero o quadrinhos uma área muito nobre por abranger ilustração, desenho, além da parte literária, interpretativa, emocional... Fazer quadrinho é barra, qualquer um pode fazer, mas nem por isso que é pra qualquer um.

 É como fazer um filme com um cara só que no final só você vai assistir.