quarta-feira, 18 de maio de 2016

Conheça nossa cozinha #45 - Tempo

 A coisa mais preciosa que temos nas mãos é tempo porque ele é finito.
 Um dia todos vamos pra debaixo da terra e não, não estou me referindo a ir para o metrô.
 Então é hora de tirar aqueles projetos engavetados e idéias que estão há anos só na cabeça e botar no papel.
 É isso.
 Até a próxima.

- Já?

 Ta bom, ta bom. Vamos falar um pouco mais.
 A preciosidade do tempo.
 Todos os dias tem 24 horas. Nem mais nem menos. E para quem faz coisas a longo prazo como quadrinhos por exemplo pode ver no tempo um grande inimigo.
 Afinal porque largar um jogo que me da prazer agora pra ficar desenhando uma pagina de uma hq que vai ficar pronta daqui um ano? É muito mais legal jogar agora e aproveitar o momento presente do que apostar em um coisa que sabe-se lá Deus vai acontecer.
 Nossa cultura está cada vez mais indo para esse caminho.
 Viver o agora, registrar todos os momentos banais como se fossem únicos e especiais, comer rápido sem nem sentir o gosto da comida e por aí vai.
 Para o quadrinista e para a arte em geral isso é extremamente nocivo.
 Todos os dias vejo (e leio) quadrinhos que são descartáveis porque os autores não tem tempo para refinar as idéias ou até tempo para fazer outras atividades para ter inspiração e adquirir experiências, para disso conseguir extrair idéias para histórias mais profundas.
 Ok, todo mundo tem que pagar as contas e pra quem vive profissionalmente de quadrinhos isso vale também. Não da pra publicar só um álbum por ano e ficar rico com isso. Tem quem consiga, mas quem consegue ficar trabalhando um ano em uma única história geralmente é porque tem outros meios de pagar as contas.
 Esse é o padrão do mundo e correr contra a correnteza não é tão simples. Há menos que você se desapegue dos bens materiais e viva com um custo de vida muito baixo com uma dieta a la Ed Mort de pizza e fanta uva (a pizza nos dias pares e a fanta nos dias impares) como muitos artistas fizeram ao longo da história.
 - E quem é idiota de fazer isso?
 Por mais estúpido que pareça, um monte de gente é.
 Não nesse ponto de abrir mão de tudo e só ficar fazendo quadrinho o dia todo e vivendo de vento como fizeram muitos pintores que morreram de fome e hoje tem seus quadros vendidos por milhões sem que eles tenham vista uma nota desse dinheiro. Mas eu mesmo me tomo como exemplo.
 Trabalhei muitos anos com outras coisas que não o desenho e talvez eu ainda trabalhe futuramente, porém nunca deixei os quadrinhos completamente de lado como muitos conhecidos meus. Sempre estudei, treinei, desenhei e mantenho esse blog há um bom tempo sem faltas na programação mesmo não ganhando um puto com isso.
 - Porque?
 Porque como eu disse, a coisa mais preciosa que temos é o tempo.
 A única coisa que a gente tem realmente é isso.
 Dinheiro, sucesso, aplausos, luxo não adianta de nada se você não tem tempo para usufruir.
 Bem como quadrinhos feitos para serem diários ou atenderem uma demanda.
 Jamais desmerecendo quem faz, mas não aquela coisa de curtir o processo e experimentar outras possibilidades como em uma história com um prazo mais largo.
 Óbvio que no fim a gente fica coçando jogando vídeo game e acaba fazendo tudo em uma semana, mas tudo bem.
  O Akira Toryama já declarou estar cansado da violência de dragon ball. Ao ponto que nem é ele quem desenha mais.
 Este é um caso em que o artista teve a escolha de parar porque já tem de onde tirar o sustento (acredito eu), ao contrário de muitos outros que tem que se forçar todos os dias a desenhar coisas que já não são mais tão interessantes assim para eles.
 Naruto por exemplo, durou lá seus 20 anos. O cara começou com 18 ou 19 anos por aí e terminou com 40. Sua vida e modo de pensar mudam completamente nesse meio tempo. Mas a demanda do publico exige que você faça aquele personagem 20, 30 anos seguidos porque se você mudar, o risco de rejeição é alto. Vide personagens de comics com 70 anos. Ou a turma da Mônica com 50.
 - Mas o Mauricio só administra hoje.
 Com certeza.
 Porque o cara já esta com seus 80 anos de idade e não vai ficar fazendo coisa sobre infância. Eu não teria saco e nem saberia conversar com as crianças de hoje através de uma história porque minha infância foi completamente diferente das delas, imagine um idoso.
 E gostemos ou não. Temos essa possibilidade de escolher parar o tempo todo.
 O Naruto ou dragon ball podiam ter sido encerrados a hora que os autores quisessem. Não foi o publico que impôs que eles deveriam continuar, claro que é uma falta de respeito parar uma coisa no meio, mas alongar ao ponto de estragar tudo também é . Talvez tenha sido o modelo de negócio, o cara para de fazer e passa fome ou toma um processo por quebra de contrato.
 E é esse mesmo modelo de deixa os artistas engessados e sem tempo para olhar o trabalho de fora e até de experimentar coisas novas (salvo quem já tem nome e é aceito ou quem não liga pra passar fome).
 Óbvio que ter o dinheirinho caindo todo mês na conta ajuda a manter a motivação para encarar a rotina. Ter segurança que você vai estar empregado e tendo seu pão na mesa é o pagamento por ficar fazendo coisa que você talvez nem goste, e se gosta bom para você e não sou de maneira nenhuma contra. Estabilidade é bom e dinheiro também.
 Porém o meu medo é de chegar lá na frente olhar para trás e me arrepender de ter usado o tempo só para ganhar dinheiro em vez do contrário.
 Ganhar dinheiro para ganhar tempo livre.
 Porque o tempo vai passar, gostemos ou não.
 E não dinheiro não faz diferença pra quem ta morto.
 Tempo faz.

 Porque quem tem tempo é porque não morreu ainda.