quarta-feira, 8 de junho de 2016

Conheça nossa cozinha #48 - A brodagem

 Entre o pessoal da classe dos quadrinhos existe uma certa “brodagem” meio obrigatória entre artistas que eu não gosto muito não.
 - Então vá e viva isolado na sua bolha!
 Calma, não é pra tanto.
 Conhecer gente nova é sempre legal e te faz crescer de alguma forma. Mesmo que no final da conversa você ache a pessoa um bosta... Ou ela te ache um bosta, mas enfim...Isso acontece em qualquer âmbito social, na rodinha de músicos, na rodinha de magic, no curso de artesanato, enfim... Seria um mau de turminha?
 Tipo o torcedor que acha que o cara que usa a camisa do mesmo time é legal só por isso. Sem se preocupar se o cara anda por espancando cachorros, batendo na própria mãe ou se já matou três pessoas e ficou 15 anos na cadeia (Não vou citar o time em questão para não ser mal intencionado... Fica a seu critério).
 Com quadrinista acontece muito isso.
 Uma porque nem sempre é fácil achar alguém para falar de quadrinhos, seja porque a maioria de nós somos tímidos ou porque não temos gente próxima o tempo todo que se interesse em trocar meia hora de conversa sobre o assunto. Então quando a gente acha alguém para falar sobre os quadrinhos/coisas que a gente gosta é legal.
 Porém às vezes isso leva a uma certa “obrigação moral” de que o quadrinista tem que ser legal com todo mundo da classe só por isso, tipo o torcedor.
 Ok, a gente tem que ser gentil com qualquer ser humano que demonstre o mínimo de empatia, ou mesmo que não demonstre, isso faz bem para o espírito ou para fazer cocô macio... Não tenho certeza... Enfim, nisso acabamos criando uma série de regras como se houvesse uma “cartilha do quadrinista legal: Guia prático para não arrumar tretinhas com seus bróders!”.
 Número 1 - Crie antipatia por gente que você nem conhece pessoalmente só porque você não gosta do trabalho da pessoa e isso a torna automaticamente um ser humano de segunda linha.
 Número 2 - Ache que a pessoa é o melhor ser do mundo só porque ela faz uma história foda mesmo ela sendo um bosta como ser humano! Do tipo que chuta cachorros e bate na própria mãe!
 Número 3 - Compre gibi ruim só pela brodagem porque isso parece a coisa certa e te da um senso de filantropia.
 “To comprando gibi do fulano ali pra ele não passar fome!”.
 E por aí vai...
 Tenho minhas richas pessoais porque não sou santo, porém vejo como chega a ser algo pateticamente infantil. Se eu não gosto do trabalho da pessoa é só não ler e ficar de boa. A humanidade ta fodendo com o ar que eu respiro e nem por isso estamos reclamando com as grandes montadoras de carros por isso. Porque então encher o saco de quem nem faz diferença no dia se você não quiser?
 Muitas vezes eu me pego descendo o ferro gratuitamente em certas coisas sem me dar conta disso.
 E quando encontro o cara em um evento qualquer viro o cara... Porém é mais timidez que ódio no coração mesmo. O que leva a um outro ponto.
 Quadrinistas costumam ser mais introspectivos.
 “Ah nossa que cara arrogante!”
 Por isso quando a pessoa não fala com você pode ser mais por vergonha do que por arrogância ou soberba.

 Se você me conhecer pessoalmente vai entender... Porque eu nem vou olhar na sua cara de primeira. O que leva a outro ponto, que é a interpretação.
 A maior fonte dos mal entendidos é interpretação errada das coisas.
 Temos dificuldade em assimilar coisas rapidamente (indiretas em mensagens de texto são a prova disso) e às vezes e nos cegamos pelo nosso próprio julgamento. Isso no caso de uma pessoa tímida funciona como uma linha de defesa... Então melhor deixar quieto, não é todo mundo que é da brodagem.
 E outra coisa é saber que a relação quadrinista/leitor por mais que crie vínculos é uma relação como qualquer outra. São duas pessoas com gostos e opiniões distintos. Não adianta o leitor querer mandar na obra do autor só porque ele compra o gibi.
 - Mas eu estou apoiando o artista! Eu estou PAGANDO!
 Meu filho você ta pagando um monte de outras coisas pra levar fumo no fim do mês.
 O leitor não está fazendo isso sem ganhar nada em troca. Ele está financiando o trabalho do autor, assim como quando você da um like/deslike no vídeo do youtube você está contribuindo com o canal por cara ficar rico (um dia a gente chega lá), ninguém faz quadrinho por filantropia... Porque filantropia não costuma pagar as contas.
 Eu mesmo já comprei muito quadrinho bosta pela brodagem com os irmão, afinal eu estou ajudando o quadrinho nacional! Só que não.
 Não que, “meu deus o cara tem que vir com um puta encadernado de capa dura com 200 paginas a vinte reias” pra me agradar, longe disso. O quadrinho tem que valer por si só como história.
 É tipo você comer em um restaurante sujo só porque você também tem restaurante e sabe como é foda manter um restaurante limpo. Sendo que o mínimo que se espera de um local que venda comida, é que ele seja limpo.
 Ou comer um pão com ovo de 20 reais disfarçado com nome gringo só porque isso é mais foda!
 Com quadrinhos é igual.
 O mínimo que se espera de uma história que ela se resolva.
 Não precisa ser aquela puta história complexa ou impressão fudida em papel fino, é o básico contar uma boa história.
  O difícil é: definir o que é uma boa história.
 É uma que agrada o leitor? É uma que agrada o autor? Penso que uma boa história é uma história que se resolve e não te deixa com cara de ué? Cabou? No final.
 Você verá na continuação! E o autor nunca lançará a continuação.
 Porém a brodagem tem que existir, não como obrigação, mas de forma natural.
 A brodagem tem que ser encarada como empatia. É tipo quando você vê uma pessoa começando a fazer uma coisa que você já manja e você automaticamente sente vontade de ensinar ou conversar sobre pelo simples prazer da troca. Não por alguma obrigação moral.
 Como um autor mais maduro eu gosto de ver trabalhos de gente que está começando agora e se necessário até concertar os pontos e ajudar o autor a melhorar, tanto que meu maior desejo é ser professor de quadrinhos.
 Por isso menos ódio, mais amor e ainda mais... Sensatez.