quarta-feira, 22 de junho de 2016

Conheça nossa cozinha #50 - 500 personagens

 Água, fogo, terra, madeira, ferro, cachaça, piraporinha, barro...

 Uma tendência comum quando contamos histórias é querer tuchar 500 personagens na história.
 Por quê?
 Porque criamos uma equipe de 5 heróis fodões no melhor estilo equipezinha?
 Porque é um caminho.
 Essa coisa de crossover começou lá nos anos de 1900 e sei lá eu quando, quando resolveram juntar um punhado de gente e montar a liga da justiça e deu certo, tanto que logo depois veio o quarteto fantástico, x-men... Até os filmes atuais desses mesmos seres.
 Eu mesmo tive minha fase crossover por anos quando fazia histórias de super heróis e como eu já disse esse foi um dos principais motivos de eu me perder nas histórias.
 Pensando como indivíduo temos nossa própria história, desejos, sonhos, conflitos e se nem mesmo nós conseguimos resolver ou lidar com todos agora imagina isso em cinco pessoas distintas com histórias de vida e caminhos diferentes.
 Não que seja impossível de contar todos os sonhos e aspirações de um punhado de personagens, isso só exige muita habilidade e principalmente tempo/espaço e esforço para tal.
 Por exemplo, se uma luta entre dois personagens demora dez paginas pra ser resolvida adicione mais 5 paginas para cada outra personagem que está lutando ao mesmo tempo ou 10 se for uma luta que ocorre ao mesmo tempo.
 Eu tentava tuchar 10 personagens em uma história de 20 paginas e como todos eram putamente legais eu queria que todos tivessem foco.
 Isso em histórias de ação funciona bem, porque é só o cara fazer a ceninha dele e dizer uma puta frase de impacto que ele já terá seu momento de brilho.
 Se pegar qualquer filme testosterona tu vai ver que a coisa funciona assim.
Impacto, impacto, impacto e dois personagens de um tanto tem sua história mais aprofundada.
 N obras usam essa fórmula.
 Dois caminhos (personagens) que se cruzam e outros tantos que dão suporte de fora para que os principais resolvam seu conflito. Os que fazem sucesso depois ganham suas próprias histórias (o gato de botas do xeréc por exemplo).
 Isso se deve ao tempo/espaço que eles têm para serem desenvolvidos.
 Em um filme de uma hora e meia não da pra contar muita coisa sem manter um foco em algo, uma série tem mais tempo/espaço para resolver isso e uma novela ou um livro mais ainda.
 A questão é até onde o seu leitor vai comprar essa briga com você.
 Porque manter uma história longa com desenvolvimento lento de todos os personagens torna a história um martírio de ler às vezes. Watchman, O poderoso chefão, são exemplos disso, são narrativas cansativas. Não é coisa pra se degustar em uma sentada só como um filme mais “pipoca”. Exige tempo/espaço não só para a apreciação do leitor. E para o autor é o tipo de história que leva tempo para ser concebida e desenvolvida. (O que não significa que elas sejam melhores, só que são mais aprofundadas).
 - Mas então como a gente faz? Fica no 1 x 1 mesmo?
 Não.
 A questão que eu quero mostrar aqui é do tempo/espaço que você tem para resolver uma história.
 Não adianta criar 5 heróis e querer resolver todos bem em uma história de 10 paginas.
 Em mangá é muito mais comum esse estilo de grupo porque o autor tem mais tempo/espaço para trabalhar nisso. Duas, três, cinco mil páginas são tempo/espaço mais que suficiente para se contar uma vida ou duas, ou cinco, de forma a satisfazer e muito bem o leitor.
 Em comics esse formato funciona também porque temos tanta intimidade com os heróis o tempo inteiro em outras mídias que ver só uma fração da história ali em um tempo/espaço de uma hora e meia é suficiente.
 Afinal quem não conhece o superómen?
 Quem não sabe que ele veio do planeta Kripiton trazido por uma nave, que ele solta fogo pelos olhos, que voa e bla bla bla.
 Agora vamos nós, autores desconhecidos começar a criar uma equipe de heróis para resolver eles em uma única história...
 Nesse formato ainda da pra passar, porque o leitor cria empatia por outras características (visuais, físicas, poderes) do personagem que não tem necessariamente vínculo com a personalidade dele (Big Hero 6 por exemplo).
 Agora se é um núcleo de personagens que contam só sobre suas vidas cotidianas o trabalho já vai ser mais árduo, porque o foco vai se manter no herói e o resto vamos ver apenas superficialmente se o tempo/espaço for curto (taca estereótipos neles!). Se o autor tentar resolver a história da vida de todos com complexidade e todos os conflitos que uma pessoa tem do começo ao fim em poucas páginas a história ficam um rolo, perde o foco e fica superficial porque não focou em nada.
 Ao passo que ficar desenvolvendo um personagem muito tempo para ele fazer alguma coisa só no final pode deixar sua história uma monotonia tremenda, séries mais longas podem ter esse problema.
 Não que isso seja regra, pois extremos existem e muito bons por sinal.
 Nisso acredito que uma saída comum nesses casos é mostrar pontos chave da vida do personagem para demonstrar o porquê de ele ser quem é hoje sem ficar encebando muito contando coisas inúteis sobre ele e de forma que o leitor crie empatia pelo mesmo sabendo pouca coisa sobre ele.
 Mas isso é assunto para a próxima coluna.

 Até.