quarta-feira, 29 de junho de 2016

Conheça nossa cozinha #51 - Pontos chave

 Contar absolutamente tudo na vida de um personagem é tão desnecessário como postar o que você comeu no almoço no seu instagram.
 Não me interessa.
 A menos que eu seja intimo de você.
 Por isso começar uma história contando até a cor da cueca do personagem se isso não tem serventia mais a frente pode ser um tiro no pé.
 “Eu me chamo Fabio, estudo na escola tal, não faço sucesso com as minas e quando eu tinha três anos eu comia terra.”
 Mesmo essa frase parecendo tonta ela diz muito sobre o personagem.
 Ele é um ser masculino (Fabio), adolescente looser (estudo na escola, não faço sucesso com mulheres) e provavelmente o motivo é porque ele é um bobão...? Por quê? Porque ele comia terra? Crianças de três anos botam tudo na boca, inclusive terra! Logo isso não diz nada sobre ele.
 Agora se eu complementar com “comia terra até os oito anos” ou “e até hoje eu faço isso”, isso mostra que ele não é lá muito normal, ou seja, eu estou dando uma informação chave do passado pra explicar algo que afeta o presente dele, isso é um ponto chave.
 Ponto chave funciona como um gancho, uma informação que atiça a curiosidade e puxa o leitor de volta para a história para impedir que ele disperse e perca o interesse nela e continue até o final.
 No começo da história é comum se usar o ponto chave da sua história onde o leitor vai ser fisgado logo de cara. Geralmente é uma informação que entrega logo de cara o tema da história para o leitor já ficar ciente do que vai encontrar e curioso para ver o desfecho.
 Uma cena de luta, um casal discutindo, uma família tomando café da manhã enquanto no jornal da televisão naves invadem a terra...
 Ou na forma de recordatório: “Não faço sucesso com as mulheres”, “Foi assim que eu morri”, por exemplo, são temas para mais de mil histórias.
 O contrário disso ocorre muito em história que começam estilo jogo de RPG.
 “Durante a guerra dos 100 anos pela conquista da província de piraporinha do sul o general Pereira em mais investida marchou com suas tropas para a fronteira de São Bernadino dos Campos e...” Não consigo pensar de um jeito que não crie um ponto chave para isso, mas há quem consiga... Tipo eu há alguns anos atrás...
 “...Iniciando a luta mais sangrenta da história de Diademons”.
 Se a história começar daqui eu ainda criei um mote para pegar o leitor, uma história de guerra.
 Agora tem quem consiga ir mais pra frente e narrar uma odisséia para chegar a um cara que não tem nada a ver com esse contexto, do tipo que herdou a espada do avô Pereira e tem como meta de vida ser o maior vendedor de churros de Diademons.
 Se essa porra dessa espada ou o general não tiverem serventia na história, contar sobre os feitos do velho Pereira não tem sentido prático e isso se torna um informação supérflua ou também conhecida como “encheção de linguiça”.
 Já a guerra como é um evento maior que marcou o universo atual do personagem ainda serve para justificar a ambientação e o contexto em que ele vive atualmente, porém o fato não precisa ser tão detalhado se não é o foco da história como seria se a história fosse sobre um Judeu sobrevivente da segunda guerra mundial, ou seja, se a história fosse de um personagem que foi diretamente afetado pelo evento.
 Assim como eu não preciso falar sobre a segunda guerra para explicar a origem da internet se a minha história fala sobre um personagem que só usa a internet para trocar uma ou duas mensagens com os outros personagens.
 A menos que a história seja baseada nesse fato, como uma história sobre pessoas que só se relacionam pela internet.
 Porém se não é, é o mesmo que explicar que o Sol gira em volta da Terra (ou é o contrário?). O leitor comum já sabe o que é internet e que a Terra gira em volta do Sol.
 Nosso herói é um aspirante a vendedor de churros.
 Essa é a história a ser contada.
 E vamos narrar fatos sobre ele que o levaram a querer isso e fatos que o levarão a conquistar seu sonho. Não que ele comia terra até os três anos e que só dava mal com mulher na escola se isso não afeta em nada o presente dele.
 Um bom exemplo de filme que trabalha só com pontos chave é o de volta para o futuro, apesar do começo do primeiro filme ser comum, onde só há uma apresentação da cidade de Hillvalley e do contexto do personagem, quando o minino volta para o mesmo local no passado essa cena cria o contra ponto com o tempo/espaço presente (agora futuro) e tempo/espaço passado (agora presente) se tornando um ponto chave no filme. Ou o fato de apresentar ele como um personagem mais ativo do que passivo por ele ser meio “rebelde”, as cenas iniciais tornam-se chave (necessárias) para justificar as ações dele mais pro meio do filme.
 Em quadrinhos os pontos chave são eficientes porque leitor é um bicho meio preguiçoso, então temos que puxar ele de volta para a leitura o tempo inteiro e fisga-lo logo de começo quando ele não conhece nosso trabalho (o que é freqüente).
 No cinema é difícil você sair no meio do filme, agora numa leitura de quadrinhos/livro é um dois, ainda mais quando você não paga pra ler ou está desinteressado.
 Porque leitura de quadrinhos exige uma postura ativa do leitor.
 Não é só ficar sentado ali vendo as imagens passando como o filme faz para você, você tem que ler, dar voz, interpretar o desenho e avançar as paginas, não tem alguém que já fez isso por você como no filme.
 O máximo que o autor fez foi planejar o caminho para te auxiliar e para manter você no fluxo da narrativa para você não perder o interesse, mas quem lê no final é você.
 Por isso o uso de pontos chaves é sempre importante para puxar o leitor de volta para a história.
 Porém quando o leitor já tem mais intimidade com o universo que você está apresentando a ele você pode colocar informações mais supérfluas porque é legal conhecer mais sobre o personagem, assim como é com quem temos mais intimidade.
 Só que isso tem que ser pensado porque restringe seu publico a quem já é intimo da história ou é fã para acompanhar histórias mais fora do contexto original e que contam fatos isolados, porém até mesmo esses fatos costumam ter alguma ligação com o universo principal seja pelo uso de personagens/ambientes já conhecidos e pouco explorados ou em situações novas (Fairy Tail) ou fatos que se ligam a história daqueles personagens de alguma forma.
 Como exemplo, posso citar a série fabulas que eu comprei um copilado de edições que mostram a parte da Cindy (Cinderela).
 Nesse arco da história a Branca de neve encontra-se viúva porque seu marido (lobo mal) fora morto em outra parte da história que corresponde a saga dela e os filhos da mesma podem voar (sim porque lobo voa, né?), fatos que são narrados na parte em que a branca de neve é o ponto central da história.
 Na parte da Cinderela essas informações estão presentes, mas não são essenciais para os novos leitores (como eu) compreenderem o contexto geral da aventura que está sendo narrado ali.
 Se fossem informações essenciais para a compreensão ou ficasse se estendendo muito como foi em outro volume solto da mesma coleção que eu li no arco da branca de neve sem explicar porra nenhuma ia ser um tiro no pé, porque eu ficar perdido na leitura e como muitos fazem ia largar a coisa no meio porque não ia entender.
 E foi exatamente o que eu fiz porque achei a história mal resolvida por falta de paciência e de costume de ler coisas seriadas que não são fechadas.
  O que sai mais disso talvez seja a bíblia (não questionando a veracidade ou crença), porque cada história ali tem um contexto, personagens e até mesmo universos (apesar de ser o nosso) que não se ligam todos de forma direta um com o outro. Quando muito se ligam pelo parentesco ou migração, David que era filho de não sei quem, que era neto de não sei quem... Que volta lá para... Adão?
 Nem Adão e Eva se liga aos outros textos bíblicos até onde eu sei.
 O que caracteriza um estilo que é o estilo épico, que é um conjunto de histórias que não se ligam, mas mesmo assim fazem parte de um conjunto.
 Porém até mesmo as histórias bíblicas se movem a partir de pontos chave, a história de Jesus, por exemplo, pouco fala sobre o seu lado pessoal, ou infância e sim narra pontos chave de sua vida.
 Assim como quando contamos um fato para alguém focamos nos pontos mais interessantes do acontecido e não ficamos naquela conversa de internet:
- Oi.
- Oi.
- Tudo bem?
- Tudo e você?
- Tudo bem...Fazendo?
- Nada não, e você?
- Nada também kkk.

 Fim de papo. 

 Então pense em como contar as coisas de uma forma que não seja interessante só para você, mas de forma que seja legal para os outros também.

 E os pontos chave costumam ser uma ótima ferramenta para isso.
 Não que a história precise andar para frente e ser frenética o tempo inteiro ou só ficar narrando coisa sobre a vidinha monótona de não sei quem.
 A questão é encontrar o equilíbrio e ainda mais... Arriscar.