quarta-feira, 6 de julho de 2016

Conheça nossa cozinha #52 - Fantasia/escapismo vs cotidiano/realismo

 Essa é uma treta das mais antigas nos quadrinhos.
 É difícil encontrar quem goste de ambos os estilos na mesma medida, o comum é que quem goste de um odeie o outro de paixão.
 - Há! Esses quadrinhos de cara que não come ninguém...
 - Melhor que essas porra de pião musculoso de cueca!
 - Quer tretar é?
 - Cai pra cima com sua visão a laser aí então babaca!
 - Porra mano... Pegou pesado...
 - Oh, desculpa ae mano... Mas foi você que começou...
  Porém ambos têm pontos comuns em comum e sim, eles se complementam.
 De um lado um monte de fantasia, impressionismo e cenas virtuosas de batalhas gloriosas e do outro, gente comum narrando coisas aparentemente banais sobre suas vidinhas medíocres.
 Um sujeito que é escolhido e tem como destino salvar a humanidade ou realizar uma tarefa que só ele pode é da hora. Muitas histórias já foram e serão contadas assim desde os tempos mitológicos.
 Já um sujeito quer só chegar na menina da mesma classe e isso por mais simples que seja para ele é um desafio tão grande como matar um monstro de seis cabeças que cospe acido usando uma faquinha de pão... Mas porra... Isso também é da hora!
 Mas qual é mais legal?
 Para ser justo pode-se criar um sujeito que é o escolhido para salvar o mundo e que consegue fazer isso com mais facilidade do que chegar em uma mina que será o seu desafio final.
 - Você matou 10 titãns cara! Agora vai lá e chama ela pra tomar um picolé!
 - Ah mano... Matar o titã é fácil caraio...
 Dois pesos, duas medidas.
 O comum é pensar que histórias de super heróis, ação, capa espada e pipoco comendo são para quem procura escapismo da realidade e que histórias de cotidiano e relações humanas são para quem procura algo mais calcado na realidade.
 Isso é uma forma de pensar, não a única.
 Esses são os extremos da balança e que se bem misturados funcionam que é uma beleza.
 O escapismo, a fantasia, o irreal de um lado e do outro a realidade, tão comum como a nossa.
 Pessoalmente eu gosto mais de brincar com a balança desequilibrando ela o tempo todo do que me preocupando em valorizar o lado que eu acho mais legal.
 Penso que histórias com elementos mais fantásticos e irreais sejam histórias que se conta para fora e histórias que são calcadas na realidade são histórias que se conta para dentro.
 Voar por exemplo.
 Voar é um sonho da humanidade que fora perseguido por milhares de anos, desde Ícaro na mitologia grega, passando por DaVinci na idade média até Santos Dummont que inventou o primeiro avião.
 Mas essa conquista não é para todo mundo, é para uns poucos escolhidos.
 Assim como os mil desafios que vemos em jornadas do herói por aí.
 É uma coisa que a gente prefere ver de fora.
 São desafios muito grandiosos para seres comuns como nós, que preferimos viver isso sentadinhos lendo o livro ou vendo o filme sem sair do lugar no quentinho de casa.
 Por isso o herói da fantasia tende a ser visto com admiração, ele é o cara que escolhe ir lá e fazer em vez de ficar só olhando, porque ele representa um ideal, valores bons e que nós por vezes não suportamos na vida real. E no final ele se tornará uma lenda!
 Ou você é do tipo que salva o mundo todo dia?
 Dedica e arrisca sua vida a testar foguetes para ir ao espaço?
 Eu não.
 Eu não sou lendário.
 Eu fico quieto aqui escrevendo sobre isso e deixo pra quem tem coragem.
 Esse é o herói tende a lidar com um conflito, um desafio, um objetivo que está fora dele.
 Já se apaixonar.
 Isso é tão natural quanto cagar de manhã.
 Todo mundo já se apaixonou ou vai se apaixonar pelo menos uma vez na vida, por isso ver um personagem fazendo drama por conta disso chega a ser imbecil.
 Por quê?
 Porque a gente passa por isso o tempo todo ou já passou, e sabe que a coisa não é tão dramática assim como se pensa (confie em mim, eu sei por experiência própria) é super simples.
 Porém acho que todos já passamos ou vamos passar por aquela fase que se apaixonar é o fim do mundo assim como nosso outro tipo de herói, o herói que tende a olhar para dentro.
 Esse herói ele é convicto de que essa é a verdade dele, assim como o Batman pensa que andar de cueca por aí espaçando bandido resolve alguma coisa.
 Esse herói tende a lidar com conflitos que estão dentro dele.
 Assim como nós temos que fazer durante a nossa vida a maior parte do tempo, olhar para dentro. E isso tende a ser um processo dolorido. Como descobrir que a culpa, raiva, tristeza, não vem de fora e sim de dentro.
 Por isso histórias de cotidiano tende a ser mais recheadas de drama e conflitos internos, o personagem geralmente está atravessando uma fase um tanto conturbada da realidade dele e nós acompanhamos de perto esse processo.
 Talvez o que irrite alguns nesse tipo de história é não poder interferir nisso até que a história (autor) faça isso por si mesma.
 Esse herói no final não vai se tornar uma lenda, ele no maximo vai conseguir algo que ele quer e vai ter importância para um circulo pequeno de personagens. É a recompensa proporcional a jornada dele.
 Não que isso torne a jornada dele menos importante do que a do heróis lendário, só não é importante para todo mundo. Afinal ele busca resolver algo que está dentro dele somente.
 Acho interessante como essas histórias (pelo menos em mim) tendem a ter um efeito renovador e fazem a gente se sentir melhor porque acabamos nos colocando no lugar daqueles seres ali na história e os comparando com a gente, para no final constatar como a gente não é tão fudido assim quanto pensa (pílulas azuis é um bom exemplo).
 Já no quesito super heróis, ou “gente que quer salvar o mundo” eu me sinto até mal por ver alguém com valores tão bons que eu nunca teria. Porém ainda sim é admirável como o sujeito tem a moral de fazer coisas fodas que a gente no lugar talvez faria também... Mas olhando de fora não faria nem fodendo, tipo devolver uma maleta cheia de grana.
 Comumente a bondade dele é recompensada mais a frente... Isso é um truque dos roteiristas para que a gente não se sinta mal quando a história termina. Afinal ver alguém fazendo o bem e se ferrando no final não é legal.
 Mas aí entram os anti heróis com suas falhas de caráter, eles são mais próximos de nós. Eles tem dramas pessoais, mas não ao ponto de ficarem chorando o tempo todo só porque deu ruim em algum quesito ou ponto da vidinha medíocre deles e agem, mas não ao ponto de “Ahhhh eu tenho a missão de salvar a humanidade! Todos dependem de mim!”.
 Por isso ao contar histórias é importante saber equilibrar a balança.
 Não criar uma história cheia só de atos heróicos e lições de moral que façam o leitor querer se matar porque não coloca o lixo reciclável no saquinho verde.
 - Se você não reciclar o lixo, super homem vai te dar um sermão!
 Ou criar uma história com um personagem tão apático e chato que só fica no canto chorando porque ele ferveu o leite, mas o achocolatado acabou e ele não quer tomar leite puro.
 - Buuuuua acabou o chocolate! E eu já esquentei o leite! Minha vida é uma merda! E eu nunca comi ninguém!
 Também é importante notar que o equilíbrio não precisa estar no mesmo personagem.
 O superómen cheio de moral, autruismo, valores bons, por exemplo, faz contraponto com o Lex Luthor (careca foda!) que é um canalha de quinta e que faz tudo só para satisfazer seus desejos de conhecimento sem se importar com as consequências. Ou o Clark Quente que é um bundão, gente boa e faz contraponto com a Lóis Lane que é ativa, enérgica e mesquinha.
 Claro que como tudo, não tem receita de bolo pronto (exceto pelos bolos prontos que vem na caixinha, claro). É questão de fazer histórias e ir testando o que funciona aprender a estabelecer onde o foco da história ficará por mais tempo, sabendo quando sair e voltar a ele para não cansar o leitor ou para dar tempo suficiente para ele se envolver com a ação que está sendo narrada.
 Saber usar o foco é um jeito super eficiente de equilibrar desequilibrar a balança.
 Mas isso é assunto para outra coluna.

 Até.