quarta-feira, 20 de julho de 2016

Conheça nossa cozinha #54 - Teoria vs prática

 Não importa o quanto a gente estude só aprendemos na pratica, e não importa o quanto pratiquemos temos que sentar estudar e analisar o processo pratico para melhorar e corrigir o que está ou não funcionando.
 Se você lê esse monte de besteira que eu falo aqui e quando lê minhas hq´s acha elas ruins ou falhas, bem eu tenho uma coisa pra te dizer:
 Eu também acho.
 Não é porque eu, ou seu professor, ou um palestrante, ou Scott McLoud vomita um monte de informações teóricas e conceitos fudidos sobre teoria dos quadrinhos que somos donos da verdade absoluta.
 Até porque a ultima fronteira sempre cai na questão do gosto não gosto.
 Pegando como exemplo Eisner que pra mim que é uma referência no quadrinho.
 Em seu livro comics e arte sequencial ele explica toda a teoria aplicada ao seu processo criativo e de execução em algumas hq´s, na maioria do Spirit, o que não torna o Spirit em si um personagem do meu agrado. Porque tem histórias dele que são bem na média... Assim como outros tantos autores “consagrados” por aí.
 Arte em geral é um conceito abstrato para ter uma verdade absoluta ou uma formula que funcione para todo mundo. Arte não é como a gravidade que é um conceito exato.
 Não basta só eu mudar de opinião que isso vai alterar a gravidade... A gravidade ta pouco se fodendo pro que a gente pensa, ela existe e ponto final.
 Já a arte é totalmente vulnerável aos olhos de quem vê cada um de nós tem a sua interpretação da coisa.
 Afinal a história que me agrada com certeza alguém odeia e vice-versa.
 No campo teórico é muito mais fácil organizar idéias e formular argumentos para justificar nossa opinião. Trocando em miúdos: É mais fácil falar do que fazer.
 Tem muito entendedor de quadrinho por aí que mete o ferro em tudo que é coisa e nunca se propôs a fazer uma página na vida pra ver como é difícil chegar a um resultado bom, agora imagine isso para uma história de 40, 100, 200 páginas.
 Ao passo que existem outros que se proclamam autodidatas e passam a vida se vangloriando de nunca terem feito um curso sequer e passam a vida cometendo erros primários que deixam a história confusa e difícil de ser compreendida.
 - Mas fulano da aula não sei aonde!
 - Fulano publica na editora fudida!
 Esse “status” é uma coisa que mata muito artista. Só porque fulaninho é famoso ele é gênio.
 O que leva uma boa parte do pessoal que ta vindo por aí a acreditar que esse é o caminho, porque fulaninho ta marvet.... Ok ele ta, mas isso não torna ele um bom contador de histórias. Ao passo que o cara que faz sua histórinha ali no sufitão pode ter um trabalho muito mais interessante.
 - Mas ele não ta na Marvet!
 O lance é que a história só tem que funcionar seja ela simples ou complexa. Seja ela feita no papel de pão ou no papel couchê. Contada oralmente ou com efeitos 3d e som de ultima geração.
 É o básico do básico.
 E também tem o caso de status que é quando um autor acerta a mão logo de primeira e vira o gênio do momento. Aí todo mundo espera que ele faça algo melhor em seguida, sendo que o mais comum é que o autor mude e queira tentar algo novo na próxima, o que pode ocasionar uma falha monumental, ou um desagrado louco na geral.
 - Mas esse mangá não é melhor que o anterior, ele devia ter continuado o outro em vez de fazer esse!
 É... O mercado costuma ser bastante cruel com quem desagrada.
 Uma história que você faz e que um leitor seu novo não gosta te queima com ele pro resto da vida. Já quem conhece seu trabalho a mais tempo tende a ser mais compreensivo e sabe que na próxima você pode reconquista-lo, e no meu caso eu acho até legal que o autor me desagrade e assim me surpreenda com algo novo. Porque isso me tira da zona de conforto de ficar preso aos mesmo temas e gostos a vida toda.
 - Cabaleiros que é desenho foda!
 Isso tem ocasionado gente que fica em cima do muro o tempo inteiro pra ganhar o agrado da geral e que não se arrisca a ser odiado de paixão, porém também não se arrisca a ser amado de coração. Eu chamo isso de quadrinho morno.
 Nem quente, nem frio.
 É legalzinho, bonitinho, engraçadinho...
 Quem namora sabe como é, a gente procura o meio termo, mas não da pra ser morno o tempo todo, tem hora que é super legal e tem hora que é um saco mesmo.
 Não tem como passar a vida no morno.
 Até porque se você não desperta nenhuma emoção com o que está fazendo é porque ninguém está sentindo o que você faz, nem você mesmo.
 Quantas vezes eu mesmo me pego desgostoso com coisas que eu faço contra a minha vontade porque a história pede.
 Ser odiado faz parte.
 E além dessa obrigação moral de genialidade contínua que todo mundo parece estar esperando existe o outro lado do “status” que é o cara que acha que só porque tem nome pode fazer qualquer bosta que ninguém ta nem aí, afinal ele vende só com o nome dele.
 Isso é nocivo, porque leva o autor a ficar estacionado e não evoluir mais porque afinal ele já é o pica dura da geral né?
 O que me leva a pensar que como tudo nessa vida a coisa é interpretação.
 Não é porque eu, ou Eisner, ou seu professor falamos algo que estamos sendo superiores. Falar sobre teorias de quadrinhos é mais uma troca de experiências do que uma formula ou uma doutrina.
 - Desenhe 5 mil paginas e você será um mestre quadrinista!
 Não.
 Costumo pensar em teoria e prática como um mapa de uma viagem.
 A teoria é o mapa, ele te da as informações.
 A pratica é a viagem em si, com seus imprevistos, erros, acertos e a experiência em si, coisas que o mapa não pode te dar.
 Então quando ler/ver uma história procure fazer uma analise e ver todo o contexto, a pratica do autor, comprar com outras obras dele ou do mesmo gênero e ver o que funcionou e o que não.
 Sempre da pra tirar algo de valor de qualquer história por mais simples que ela seja.
 Afinal ser simples também é ser genial.
 E ninguém nasce gênio ou se torna gênio e permanece assim pelo resto da vida.
 Como se diz no Bakuman: É tudo uma grande aposta.
 Ainda bem.