quarta-feira, 27 de julho de 2016

Conheça nossa cozinha #55 - Fernanda Bolinhos

 Vendo uma palestra sobre estereótipos femininos ampliei minha visão sobre o assunto e vi porque algumas personagens femininas tão cultuadas por nós (menininhos) não agradam em nada parte do publico feminino.
 Um ponto comum entre todas as considerações é as que elas costumam ser vazias ou só servem como muleta para os heróis.
 Isso me levou a uma reflexão pessoal sobre meu método de criação, afinal eu nunca tive muito domínio na coisa e muitos quadrinhos e filmes não costumam ajudar porque também vão na onda.
 Essa reflexão me levou a uma conclusão no mínimo inesperada de que minha personagem Fernanda Bolinhos, a repórter do documento Kanja quebra os “estereótipos comuns” de mulher em história.
 Ela tem voz ativa, tem objetivo nas histórias e não fica caçando macho como meta de vida.
 Parte do processo pra que ela seja assim é consciente não só pela minha visão pessoal, mas por ela ser uma personagem principal e uma repórter, o que exige que ela tenha as características que eu citei.
 Porém só agora eu tomei total ciência de como isso é importante, não só para o publico, mas para a história em si.
 Personagens femininas costumam até irritar em certas horas por serem inúteis e não terem atitudes a não ser bancar a chatinha ou a chorona.
 PORÉM para homens a coisa é desagradável do mesmo jeito.
 Afinal quem gosta de cara bundão e medroso?
 Tipo aquele cara que é um puta looser, fica esperneando a história inteira e no final ainda ganha uma gostosa como premio o que resolve todos os problemas afetivos dele... Ahã, e o céu é cor de rosa.
 Nisso vejo como a segmentação exerce influência nisso, por exemplo, se a história é para um determinado publico o personagem masculino é X e o feminino Y e se a história é para outro publico a ordem é inversa.
 Ok. Isso é mercado e essa é a forma de tornar a sua história um produto para um segmento especifico.
 Tanto que uma das dificuldades que eu encontro há anos é como compilar minhas histórias em algo que forme um conjunto, porque eu gosto de falar praticamente sobre tudo com qualquer personagem que seja.
 Seja sobre caras loosers que só querem pegar a mulher que é personagem muleta (dinossauro), ou a mina que é mais forte que todos os caras, mas age só quando precisa (o pirata da cara de pau).
 Eu sou meio arredio com essa coisa de segmentação, porém a vida é uma caixinha de surpresas e vejo que segmentação também pode ser uma ferramenta quando bem usada, afinal contamos histórias para os outros, e se a história chega até quem gosta, melhor ainda.
 Por isso a segmentação é valida mesmo que seja pra ser usada ao contrário ou pra ser completamente ignorada.
 Mas voltando aos estereótipos eu defendo que personagens femininas tem que ser melhor valorizadas e ganhar mais voz ativa. Não só ser a gostosa.
 Porém (calma, termina de ler antes de me xingar) tem que funcionar para história. Apesar da minha crença que a personagem (homem ou mulher) tem que valer por si só como personagem, acima do gênero isso ainda é uma ferramenta pra se contar história, mesmo que a intenção por trás não seja tão agradável aos nossos olhos. A questão é como e quando saber usar isso pra não ficar gratuito.
 Além do que temos limites de tempo/espaço para abranger todos os assuntos.
 Sua história precisa de um objetivo e manter o foco nele para facilitar o entendimento.
 Sempre ouço que a mina do filme 500 dias é irreal. Em certos pontos até é.
 Porém ela está atrelada a visão do personagem que é um tonto.
 Lembre-se que a história é contada pelos olhos dele, então mesmo que ela fosse “feinha” ele ia ver ela como uma gatinha porque ta de quatro por ela.
 E o fato de usarem uma atriz mais “padrãozinho” bonitona é porque ela tem que passar essa idéia, e como eu citei isso é mercado... O filme não é pensado para o publico feminino. Assim como a nova enxurrada de filmes geeks que tão vindo por aí não são pensados exatamente para os minininhos.
 Penso que um cara mais bem resolvido e maduro dificilmente se envolveria com a mina do 500 dias com ela como um looser, anti social e inexperiente com relações se envolveu. Ele só ia pegar, ficar numa boa e ainda sair feliz porque pegou ela. No mundo dele pessoas vão e vem... O contrário do personagem do filme que só aprende isso no final.
 E novamente, a história é contada pelo ponto de vista dele, se fosse o ponto de vista dela, seria completamente diferente.
 Talvez o cara fosse um carente idiota e o “mau” na história que não entendeu que ela não queria nada mais sério do que uns beijinho, ou que ela tava só procurando alguém pra passar um tempo junto até ficar de quatro por outro cara como acontece no final.
 - Nossa como ela má...
 - Sim, e o céu não é cor de rosa!
 Por isso o tempo/espaço que vamos investir na história interfere nessas escolhas e nisso acabamos castrando de um lado e exaltando outro.
 Afinal só uma história mais longa tem o tempo necessário para conseguir desenvolver mais de um personagem durante sua jornada sem ficar uma coisa rasa ou estereotipada como se vê em filmes ou histórias mais curtas.
 E bem, existem histórias com mulheres como principais onde os caras são só um bando bonitões vazios, musculosos e com cabelo de comercial de shampoo.
 - E fã service também?
 Sim.
 Fã service tem para ambos os gêneros.
 Pornô é a maior prova disso.
 O ponto é saber contrabalancear a coisa e não deixar a balança pender muito para um dos lados o tempo inteiro sem ter uma razão que justifique isso quando se quer agradar um parcela maior de leitores/expectadores/ouvintes.
 Eu mesmo quero melhorar cada vez minhas personagens femininas, criar mais delas e contar histórias pelo ponto de vista das mesmas.
 Contanto que essa seja a proposta da história como é com a Fernanda Bolinhos e seu documento kanja.
 E o importante é que essas escolhas sejam conscientes e não só vícios, hábitos ou imposições vindos do que a gente consome o tempo inteiro ou pra atender uma “demanda”... Ou será que não?

 Vai saber.