quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Conheça nossa cozinha #56 - Entre um quadro e outro

 Um lance de contar bem histórias é fazer o outro sentir o que o autor quer que ele sinta.
 Para isso todas as mídias usam de N recursos, som, imagem, gestos, linguagem... Que evocam no expectador emoções para que ele se coloque no lugar do personagem e assim sinta-se como tal e crie empatia... E no final do comercial veja aquele anuncio de banco imbecil e falso, mas enfim, a publicidade é mestre em manipular isso.
 E isso se aplica aos quadrinhos como tenho trazido aqui em tantas reflexões nesta coluna.
 O lance é saber manipular informação para chegar aonde a gente quer como um comercial faz. Se isso é ético ou não já é outra história, me atenho aqui ao quadrinho como mídia de comunicação para fazer o leitor sair de si mesmo e entrar no personagem para sair da sua realidade e adentrar e se aventurar no mundo que nós criamos.
 Bom, além dos recursos que estão presentes na história (visuais e sonoros) é importante também lembrar que existe o que ficou de fora da história, o que não é contado e como isso interfere no que é contado.
 No quadrinho uma porta para essa brecha é espaço que se passa entre um quadro e outro.
 Pode ser um segundo ou podem ser 10 mil anos percorridos em um espaço de 0,5mm.
 Por isso a sarjeta como esse intervalo é chamado é um recurso poderoso.
 A sarjeta é a brecha onde o leitor é convidado a participar na história, é como aquela cena de filme em que os personagens falam, mas não tem áudio para o expectador e a cena se completa na nossa cabeça.
 Porém esse recurso não existe sozinho, ele é como uma sombra.
 A sombra no desenho ajuda a realçar a luz, mudar o ponto de foco em uma cena para o que a gente que fique em evidência ou a ofuscar tudo completamente se a gente chapar tudo de preto.
 A sarjeta é um recurso que está totalmente ligado a narrativa, ao ritmo de leitura afinal ela é a “sombra” dos quadros.
 Quando digo ritmo de leitura me refiro ao que você vai escolher mostrar e como mostrar para transmitir a sensação de tempo de cada ação mexendo com o tamanho dos quadros, adicionando mais ou menos quadros e literalmente construindo o tempo da seqüência de eventos em um jogo de tira e põe.
 Mídias variadas usam esse recurso de maneiras diversas, a musica com mais ou menos intervalos entre as notas. O texto com mais ou menos dialogo, mais ou menos descrição, tudo para mexer com o ritmo em que a informação sonora/visual/tátil e até gustativa no caso de comida/bebida chegue a você no tempo pré determinado pelo locutor/autor/cozinheiro/artista.
 Até aí o que vai ser mostrado está claro.
 Agora como nosso tempo é finito e nos quadrinhos mais ainda, até por uma questão de manter o interesse na história fluindo, temos que cortar muita coisa e aí o que não está sendo mostrado o leitor tem que supor na cabeça dele para que ele complete nosso raciocínio e não se perca na história.
 Por exemplo:
 Pagina 1, quadro 1.
 Ação: Um personagem está dirigindo um carro a noite.
 A gente sabe que ele chegou lá dentro do carro de alguma forma, mesmo isso não sendo mostrando na história. Ele não nasceu ali dentro...Ou não. Ele o homem que viveu dentro do carro, nascido dentro de um engarrafamento ele nunca mais pode sair de lá porque ficou preso no transito por 60 anos! (só que não).
 Outro exemplo, a cena de sexo que corta e passa para outra da manhã seguinte.
 Isso no quadrinho pode ser uma passagem de dois quadros.
 Cenário, quarto a noite.
 No primeiro um personagem insinua suas intenções para o outro e no seguinte eles estão abraçados nus debaixo dos lençóis.
 Ou seja, entre um quadro e outro aconteceu uma ação.
 Que neste caso fica por conta da imaginação do leitor e que pode convenientemente ser mostrada como recordatório em cenas posteriores quando um personagem conta para um terceiro o que aconteceu naquele quarto em dado momento.
 O tempo narrativo é uma ferramenta poderosa na contação de histórias, independente da mídia.
 Na vida real os acontecimentos são sempre em ordem sequencial do momento atual para o momento atual. Presente, passado, futuro são convenções humanas.
 Não tem como em um acidente de avião, o avião parar no ar para todos contarem ou refletirem como chegaram ali naquele momento e como se arrependem de terem vivido uma vida medíocre.
 Ok. Talvez na cabeça de cada um isso esteja acontecendo, porém é coisa de 2 ou 3 segundos. Tempo de uma pessoa ter uma pensamento simples ou UMA lembrança forte, não repensar a vida inteira como se fosse em um retiro espiritual ou fazendo anos de meditação/terapia/mesa de bar para refletir sobre tudo.
 Já na ficção o autor pode manipular os fatos a vontade e ordena-los como achar mais conveniente para controlar (ou chegar o mais próximo disso) as reações/emoções de quem está ouvindo a história.
 No mundo real o tempo é só um conceito, na ficção ele funciona como algo sólido e acredito que o quadrinho é a ferramenta que mais exige habilidade do autor, justamente porque não tem como uma coisa que substitua isso, mesmo que cada um faça a seu modo.
 Vide por exemplo advogados em um tribunal.
 Existe um conjunto de provas, testemunhas e fatos e o julgamento é realizado a partir dessas informações.
 O advogado de acusação tenta usar os fatos contra o acusado, já o de defesa os usa a favor do mesmo.
 Por isso toda a informação ali é meticulosamente estudada por ambos os lados para chegarem ao seu objetivo. E ao fazer quadrinhos estamos praticamente advogando a favor de uma causa, que é a nossa história.
 E o leitor esta seguindo conosco e vai nos pegar em qualquer falha que haja inclusive no que não entrou na história ou ficou mal explicado ou ficou dentro de uma sarjeta entre dois quadros quando deveria ter entrado dentro dos quadros.
 Ou seja, temos que tomar cuidado até com que fica ali na sarjeta para que o leitor não veja o que a gente não quer que ele veja.
 Como um criminoso que entra em contradição e fala o que não deve.
 É puramente manipulação de informação.
 Esse espaço entre um quadro e outro pode conter um universo inteiro de possibilidades, o que é bom. Mas nossa função é puxar o leitor de volta para o próximo quadro e não deixar que ele caia na sarjeta e se afogue ou encontre um portal dimensional para outra história, isso é para o autor. Porque o autor já foi até o final da jornada e pode voltar e escolher o lado esquerdo de uma bifurcação em vez do direito em algum ponto da história, afinal é assim que nascem continuações e histórias novas.
 Quanto ao leitor, a gente só que ele passe por cima e veja que tem algo ali mas de forma que isso não seja mais atraente que o quadro seguinte, se não ele vai cair ali e muitas vezes não volta.

 O que é ruim.