quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Conheça nossa cozinha #58 - Fator social, fator emocional e finais desonestos.

 Ta aí umas coisas que sempre existiram.
 Pra começar, o maior (se não o único motivo) pelo qual a gente cria laços com outro ser humano são os interesses comuns. Desde casos em que realmente precisamos do outro, como pedir informações até ajuda médica precisamos ter motivações para interagir com outros seres humanos. Isso vem desde que vimos que viver em bando é melhor do que vagar sozinho por aí, e nesse caso é um tanto mais fácil puxar assunto com uma pessoa que entenda dos mesmos assuntos que você do que uma que não.
 Tipo falar de política, futebol (no caso de gente comum) e series e coisas do universo geek (nerd) pra gente como eu ou você.
E os quadrinhos como mídia de comunicação não fogem a essa regra.
Afinal o ponto comum em contar uma história (que nada mais é que transmitir informações) é gerar interesse na audiência e mante-lo até o desfecho da história.
 Tipo contar uma piada.
 A gente chama a atenção da audiência com a promessa de um final cômico.
 - Você já ouviu aquela do dinossauro manco e da velinha na padaria?
 Por quê? Porque sabemos que piadas tendem a um final cômico e que vai nos resultar em riso.
 Isso é um jeito de despertar o interesse no outro pra que ele preste atenção no que temos a dizer.
 Rede social faz isso, televisão faz isso, filme faz isso, livro faz isso.
 Contrariando o ditado que diz nunca julgue um livro pela capa, somos levados a julgar livros pela capa o tempo inteiro, porque a capa é o primeiro contato que temos com o leitor, ou seja, é a capa que gera interesse.
 Você pode ter escrito a melhor história do mundo, mas se ela não interessar a ninguém ou tiver um bom marketing por trás para torná-la algo do interesse de alguém, adeus. Você cai no esquecimento.
 Bem como muita porcaria por aí com um bom marketing cai no gosto da geral o tempo inteiro porque gera interesse na audiência, mesmo que seja por um curto período de tempo.
  Muitas coisas são pensadas de forma a serem consumidas e descartadas rapidamente ao passo que outras são feitas para terem longevidade e superar o tempo.
 Novamente, não tem certo nem errado é tudo uma questão de propósito e a gente pode ir e pegar o que serve pra gente e descartar o resto.
 Pensando nisso comecei a abrir os olhos para coisas da “modinha” para entender o porquê de algumas histórias (jogos, filmes, séries) atingirem um publico bem maior do que outros e vi que o fator social tem um peso enorme sobre a cultura de consumo.
 Por exemplo, se em um grupo de três amigos dois jogam capitão Americanópolis contra o homem da jogatina e só comentam disso o tempo inteiro, das duas uma: O terceiro se afasta e procura outra turma ou começa a jogar também para poder interagir com os outros mesmo que não goste.
 E isso é na vida em geral, não só no entretenimento.
 Isso é fator social.
 Um caminho para ganhar público.
 Porém antes disso alguma coisa fez com que os dois fulaninhos começassem a jogar, alguma coisa que gerou neles o interesse por consumir aquele jogo. Pode ser até um quarto amiguinho que os incentivou a se interessar pelo joguinho.
 Mas e no caso de um sujeito que não tem amigos?
 Ou como no nosso caso que fazemos histórias para serem consumidas individualmente?
 Como fisgar esse leitor?
 Duas ferramentas são possíveis, fator emocional e fator comum. Que no fim das contas se misturam e formam até uma coisa só.
 Por exemplo, eu gosto do tema piratas.
 Qualquer coisa que seja desse universo me chama a atenção automaticamente. Sejam jogos, filmes ou até novelas (tinha uma mexicana que era do caralho!) com essa temática. É um fator comum/emocional que está presente ali na história e isso me chama a atenção e desperta meu interesse.
 É um fator comum porque é um tema do qual eu entendo e me sinto confortável em ler/assistir uma história sobre, já que faz parte do meu universo, é um assunto tão comum pra mim como futebol ou politica é para outros.
 E emocional porque eu criei apreço pela cultura do tema, a grandes embarcações, tesouros, os piratas celebres, as aventuras, naufrágios e tudo mais, o tema me remete a sensação de aventura, perigo, intriga que me mantêm entretido por horas, e me arremete a experiências de prazer que eu já tive e gosto de repetir quando consumo uma boa história de piratas.
 É tipo comer doce de leite. Você vai gostar porque isso na sua cabeça está gravado como sendo algo bom e jiló como sendo algo ruim.
 Além destes também é boa sacada mostrar logo de cara ao seu leitor sem rodeios sobre o que é sua história. Não digo tirar a surpresa ou entregar o ouro logo de cara, mas colocar as cartas na mesa. Dizer: Isso é uma história de comédia! De drama ou de terror que seja.
 Porque assim como eu disse lá na piada você já prepara ele para o que vai vir a seguir e não cria falsas expectativas.
 Quantos de nós não vimos filmes e nos decepcionamos com o final porque parecia uma coisa e no final era outra?
 Às vezes nem é culpa da história, é a gente que cria expectativa com opinião alheia, ou julgamos baseados nas nossas experiências antes de ver, ou às vezes a história que é uma coisa e no final é outra completamente avessa e não deixou claro isso desde o começo.
 Muitas histórias que são feitas enquanto são publicadas sofrem disso porque durante a produção nossa cabeça de autor muda e muitas vezes a gente começa sem saber onde quer chegar e no final resolve aquela salada toda com aquele belo final “nada disso aconteceu”, “foi só um sonho”, “foi só uma premonição”... Que é um lixo, diga-se de passagem... porém se isso estiver explicito na história é um final válido.
 Por exemplo, tinha um desenho antigo em que um vampiro sempre tinha pesadelos bizarros e no final quando ia dar bosta ele acordava assustado, suspirava aliviado, virava pro lado fechando o caixão e voltava a dormir. E no episódio seguinte acontecia a mesma coisa, e assim vai... Ou seja, a gente já esperava que isso fosse acontecer por isso o final não era frustrante como uma puta história longa que termina desse jeito deixando a gente com cara de ué.
 Outro exemplo é o filme em que o personagem é um vidente e durante a história ele visualiza os resultados das escolhas na mente dele antes de acontecer e faz isso o tempo inteiro até aparecer o resultado da escolha de linha temporal que seja mais interessante para ele no momento presente e segundo o qual ele vai agir.
 No final do filme tudo não passa de uma premonição gigante, ou seja, a história inteira só se passou em uma simulação de linha temporal dentro da cabeça do personagem. Como isso era esperado eu não fiquei decepcionado com esse final, porque funcionou para a história.
 É importante saber que essas regras existem, mas é mais importante ainda saber que grandes histórias foram contadas por autores que nem sabiam que elas existiam. E são histórias que sobrevivem e são recontadas até os dias atuais com novas roupagens.
 Então seguir o instinto também faz parte.

 É isso.