quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Conheça nossa cozinha #59 - Ser apaixonado pelo que faz

 Isso costuma soar como conversa fiada, até porque quem diz geralmente é rico ou é bem aceito no que faz como profissão, o que causa um pouco de preconceito em quem ouve.
 É clichê, mas realmente é uma coisa que diferencia completamente o resultado de um trabalho, principalmente quando o resultado é o contrário do que esperamos, ou seja, o fracasso.
 Na vida pensamos que temos que “dar certo” (mesmo que ninguém tenha nos dito isso em momento algum).
 Nisso fico pensando o que é dar certo?
 Ter um bom emprego? Status social? Posses?
 Pode até ser, mas se isso não resulta em felicidade, em satisfação plena (e não só passageira) não adianta muita coisa.
 Sempre que ouço conversas sobre, “eu sonho em ser desenhista” ou “o Brasil podia ter uma shonen jump” me pego refletindo sobre uma série de coisas... Uma é que as pessoas que falam isso geralmente não estão fazendo nada, ou muito pouco para que isso seja possível.
 Outra é essa coisa de sonhar em ser alguma coisa.
 Este é um conceito complicado, porque tendemos a romantizar a idéia do sonho como uma coisa intangível, distante e gloriosa em vez de vê-lo como algo prático, possível e comum... Mas não menos satisfatório.
 Se você quer ser um grande desenhista, senta a bunda na cadeira e desenha. Não tem curso, professor ou até satanás que mude isso. Até porque quem define o que é ser um grande desenhista é você mesmo.
 Ok, se você quer ser um grande profissional do desenho existem padrões pré-estabelecidos dependendo da área em que você deseja atuar dentro de uma função no mercado, mas mesmo assim isso só te da um norte a seguir, não muda o fato de que tem que sentar o popozinho na cadeira desenhar, estudar e compreender o processo (pintura, perspectiva, anatomia, etc.).
 Lembro de uma citação que eu ouvi.
  Um jovem chegou para um famoso e experiente pianista e disse:
 - Nossa! Eu daria minha vida para tocar tão bem quanto você!
 E o pianista responde:
 - Eu dei.
 Não preciso dizer mais nada né?
 Sonhar é um conceito muito bonito, é legal, mas com o tempo vi que só sonhar não resolve muita coisa não.
 Acredito que o bom seja criar uma pequena expectativa ou traçar uma rota até o horizonte a curto e médio prazo e ir seguindo em frente tendo isso como norte para onde caminhar, para ter sempre um parâmetro de comparação entre o ponto inicial e o ponto de chegada.
 Por exemplo, estudar durante um ano duas horas por dia.
 - Ah mas é muito pouco!
 Melhor um pouco por dia todos os dias do que pegar 12 horas por dia durante uma semana e passar três sem fazer nada.
 Faça um desenho no primeiro dia e faça um a cada mês de estudo realizado, no sexto mês ou até antes você vai se sentir motivado a continuar porque os resultados vão começar a aparecer.
 É diferente de se lançar as cegas fazendo um quadrinho de 500 paginas na sua primeira obra da vida sem saber nada de nada.
 Claro que pode dar certo ir às cegas.
 Temos exemplos claros disso na história da humanidade.
 Mas você já parou pra pensar que pode dar errado?
 Colombo quando se lançou as cegas não encontrou as Índias como pretendia, mas sim outro continente completamente desconhecido. Ele poderia ter naufragado, caído no espaço sideral ou dado a volta ao mundo se não houvesse um continente no meio, vai saber...
 Contudo até mesmo ele se planejou e estudou para fazer o que fez.
 A América foi uma descoberta que mudou a história, mas no fim das contas não deixa de ser um fator quase imprevisto ou até mesmo um erro de calculo. O que está nos livros é a versão que se conta não necessariamente a versão que aconteceu.
 Por isso acredito que o grande lance é ir fazendo as coisas sem essa de grandes pretensões, ir traçando pequenas metas e aumentando quando você for se sentindo mais confortável para avançar para o nível seguinte, até que uma hora isso se torna algo natural.
 E é bom lembrar que o tamanho da decepção é proporcional ao tamanho dos nossos sonhos, por isso concentrar toda a energia em uma coisa só e não atingir o resultado esperado é um soco na boca do estomago que muitos não conseguem suportar. É algo que demorarmos a aprender como lidar e às vezes só tomando um soco desses da vida pra entender como é.
 Por isso muitos ficam anos e anos prometendo sem se arriscar naquela puta história da minha vida de 300 capítulos com elfos e gatos (porque todo mundo ama elfos e gatos) que ele/ela só tem na cabeça e que geralmente não vai passar da primeira critica ou vai se perder antes do capitulo 4 porque não tem base nenhuma para lidar com narrativas longas.
 Ao passo que um ou dois vão topar o desafio e fracassar. Para depois tentar de novo, e de novo até conseguir.
 Então é aí que o quanto você ama fazer o que faz entra em xeque.
 Porque você vai aguentar lidar com a dor da decepção, lidar as frustrações e criticas se reerguer e seguir em frente só se gostar muito do que faz.
 Mas calma isso não se aprende do dia para a noite.
 Levasse anos para dominar isso.
 Afinal lidar com as decepções e frustrações é mais freqüente do que lidar com sonhos realizados e colher os louros da vitória.
 É foda e pode parecer muito esquisito, mas é bom lidar com as frustrações e até mesmo decepções as vezes mais do que com as realizações, porque as realizações são só resultados de como a gente resolveu coisas e lidou com os obstáculos no caminho.
 Claro que não da pra ser extremista e polarizar para um lado só.
 Mas quando você chega lá não tem muito o que fazer além de curtir e comemorar.
 Claro que temos que comemorar tomando uma tubaina e festejando quando conquistamos algo, mas viver só disso é impossível. Assim como não da pra viver só lidando com frustração e resolvendo problema a vida inteira.
 No primeiro caso porque constância gera tédio e tédio gera vazio que tem que ser preenchido com alguma coisa (seja boa ou ruim), mesmo que seja frustração e no segundo porque esforço sem resultado gera mais frustração.
 O ideal é balancear ambos e chegar a uma medida bacana, até porque em ambos os casos o resultado é insatisfação.
 Traçar uma rota e ir seguindo até chegar aonde se quer, porque o que sobra no final de tudo não é o objetivo, mas sim o que nos levamos da jornada para dentro nós.
 A questão é.
 - Para onde você quer ir?
 - Eu não sei, estou perdida – Disse Alice para o gato.
 - Para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve.