quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Conheça nossa cozinha #60 - O quadrinho como produto

 Sou adepto da experimentação nos quadrinhos não vou negar.
 Acredito que o autor tem que inventar, se reinventar, experimentar, ousar, criar novas linguagens virar de cabeça para baixo e depois fazer tudo ao contrário. É assim que a coisa se renova.
 Mas existe um limite para isso que é o outro entender o que você está colocando ali na história. Tipo aquelas musicas que tem tanta nota, tanta variação de ritmo que fica uma farofa louca que pouca gente entende.
 Quando começamos a gostar de uma coisa a gente geralmente não ta nem aí pra o que é, só sabe que gosta.
 Isso até chegar a um nível de entendimento do assunto, ser um iniciado, ou um expert na coisa.
 Em quadrinhos por exemplo.
 Para os entendidos quadrinhos se refere a qualquer narrativa gráfica sequencial em ritimo similar a prosa que faz uso da linguagem visual e (ou) escrita para transmitir uma mensagem entre os interlocutores e bla bla bla....
 Uma definição mais simples (mas não menos completa) é: São desenhos dentro de quadradinhos que lidos em seqüência formam uma historinha.
 Ambas as definições estão certas, a questão é que cada uma atende a um publico diferente.
 Uma seria de uma tese de faculdade, a outra a explicação para uma criança.
 Isso cai em publico alvo.
 Eu mesmo sou do tipo que não sabe lidar muito com essa de publico alvo ou direcionamento, mas ultimamente vejo que isso é uma ferramenta que mais tende a ajudar o nosso quadrinho a crescer do que a enfraquecê-lo. Porque se a sua mensagem não chega ao publico certo, ou seja, a quem quer ou vai ouvi-la, ela perde a finalidade.
 É o mesmo que você falar em bom português com um Russo que a mãe dele é uma puta quando o melhor seria falar em Russo ou quando muito em Inglês que a mãe dele é uma puta para ele captar a mensagem... Se bem que nesse caso é melhor ele não entenda mesmo... Mas se você estivesse pedindo ajuda, ou até uma comida no restaurante em outro país, como na China?
 - Ei china, me vê esse aqui. – Você diz apontando com o dedo no cardápio mostrando ara o garçom um nome qualquer achando que vai vir aquele china in box maneiro para depois constatar que o sujeito te trouxe alguma comida louca que eles tem por lá, tipo cachorro cozido ou barata.
 Com quadrinhos é a mesma coisa.
 É legal fazer aquela história experimental toda louca, ou encher o sua história de referencias que você adora. É legal mesmo.
 Desde que quem leia tenha o mínimo de conhecimento para decifrar sua mensagem, porque que toda a forma de linguagem/comunicação é um código. E quanto mais complexa ele for para decifrar mais ela se torna exclusiva de um grupo.
 Nesse ponto não tem bom nem ruim em “codificar” sua história para deixá-la mais profunda ou interessante, isso é só uma escolha.
 Há muito vejo gente xingando histórias simples demais de um lado e do outro gente xingando histórias complexas demais em uma treta sem fim pelo qual é melhor.
 Bom, em vez de entrar na treta também resolvi observar e vi que para cada fatia de publico tem uma demanda de histórias, e pensei:
 Da para aproveitar isso.
 Afinal a gente conta uma história para alguém, isso é fato.
 Falar, escrever, se comunicar é transmitir uma informação/código adiante. Para isso nos comunicamos.
 Caso contrário bastaria cada um ficar imaginando qualquer coisa na sua mente e ficar rindo sozinho... Se bem que, até para pensar a gente se comunica. Afinal quem não fala com si mesmo mentalmente enquanto pensa?
 Um dos quadrinhos que eu mais gosto é uma HQ chamada vizinhos do Laerte.
 Essa HQ é interessante porque ela desobedece a um monte de “padrões” estéticos e de narrativa e cria outros completamente únicos sem prejudicar a leitura, ou seja, a compreensão da mensagem é fácil até para pessoas que não são “iniciadas” no mundo dos quadrinhos.
 É uma leitura simples e gostosa. Até porque é inteira em pantomia (sem diálogos ou texto escrito).
 Ao contrário de clássicos chatos e maçantes da literatura (ou quadrinhos) que tem de ser praticamente decifrados por usarem uma linguagem muito arcaica ou por serem extremamente complexos para a compreensão de um leitor iniciante ou médio.
 Ou seja, não é o que se conta, é como se conta.
 Da pra falar de qualquer assunto sem deixar a leitura maçante e chata como muita coisa que eu já vi por aí.
 Ao passo que da pra falar de uma coisas simples de uma forma que o assunto pareça a coisa mais interessante do mundo. Tipo fofóquinha.
 É só saber chegar ao publico certo, ou seja, aquela que se interessa pelo que temos a dizer.
 Só que ao contrário das grandes marcas que tem milhões para investir e até para criar tendências nós temos que ir na base da sorte, ou melhor ainda, estudar o publico que consome a plataforma onde nossas histórias são publicadas e até se apropriar desse publico consumidor que as grandes marcas já criaram.
 Por exemplo:
 Em rede social a mensagem tem que ser de fácil compreensão, despertar interesse e ter o mínimo de texto para atingir o publico médio, tipo MEME.
 É simples e todo mundo lê só porque tem uma fotinha com uma frase de efeito.
Já em um evento de quadrinhos independentes o publico consumidor já está acima da média, não é só o cara que lê ocasinalmente. É um pessoal que procura algo mais complexo e interessante. Não um livrão cheio de memes. Mas também não é o tipo que vai pagar 200 reais em um álbum de capa dura de um autor que ele nunca viu.
 Bem como histórias.
 O publico que vai ler suas histórias é que define como ela deve ser contada.
 Se vai ter desenho fudido, ou muito texto, ou cores enfim.
 Pensando na história em quadrinhos como algo a ser consumido e não só fazer por fazer, da pra ter um direcionamento melhor sobre as tomadas de decisão na história.
Claro que isso é uma coisa que leva tempo para ser aprendida.
 E o único jeito é sentar e fazer até pegar o jeito.
 - Mas como assim? Eu quero é ser original! Revolucionar os quadrinhos! E tereréu!
 Muito se fala em contar coisas que você goste, ser único e tal, e no outro lado que você conta uma história para outra pessoa então você tem que conversar com o seu publico.
 Novamente entra a questão do equilíbrio.
 Ser extremista não leva a nada.
 Quem faz histórias só para si mesmo e ta cagando pro mundo tende a atingir uma parcela pequena de leitores.
 Isso tem dois lados, os leitores se tornam mais fieis porque eles amam ou odeiam. Porém quem consegue se destacar nesse meio tende a ter um trabalho mais sólido a longo prazo por ter um publico que realmente gosta do que o autor faz. Só que esse é um caminho que leva muito mais tempo para formar um publico cativo.
 Já quem faz histórias pensando só no publico tende a ser genérico e não tem autenticidade.
 Autores assim cativam muitos leitores ao passo que perdem também, porque estão sempre competindo com outros 10 iguais.
 Narutos, Gokus e companhia o mundo já ta cheio.
 Se fizer mais vai vender?
 Vai.
 Só que assim que aparecer outro Goku mais interessante grande parte do publico vai migrar para aquela história porque é a história do momento.
 Então é a sua (bem como a minha) experiência pessoal que é o que conta.
 Existem exemplos que são bons nos dois extremos, porém acho seguro ficar no meio termo e expandir para ambos os lados aos poucos. Ser original, mas também pensar no que o seu publico espera. Ao menos para ganhar a fidelidade dele até você ir poder apresentar coisas mais complexas e experimentais porque aí eles já vão estar familiarizados com o seu estilo de contar histórias.
 Grandes empresas fazem isso o tempo todo, e em vez de demonizar a coisa (como eu já fiz muito) eu vejo que é uma boa ferramenta para criar publico leitor das histórias que a gente conta.
 Porém não podemos esquecer do fundamental, que é se divertir com isso.
 O quadrinho tem que ser visto como produto, mas não só como tal.
 Quadrinhos são um meio de comunicar idéias e faze-lo chegar às mãos certas é só mais uma etapa do processo. O essencial ainda está em se realizar com o que a gente faz, porque isso é que da o sentido em fazer. O retorno financeiro é só consequência.