quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Conheça nossa cozinha #61

 Aaaaaaaah eu vou gozar!
(carro de som que passa depois das onze da noite tocando musica alta na sua rua).

 O Clímax, o apogeu, o auge, o ápice, a cena impactante! O ponto alto na história! Aquele momento de tirar o fôlego e deixar a gente com cara PUTA QUE O PARIU QUE FODA! É o clímax da história.
 Porém como tudo, se usado em excesso resulta em um belíssimo côco.
 Não é raro ver narrativas baseadas em excesso de clímax e impacto o tempo inteiro.
 Funciona?
 Me limito a dizer que tudo tem seu publico.
 Por exemplo, quem não adora ver aquele cara parrudão picando tiro pra todo lado e protagonizando cenas de tirar o fôlego o tempo inteiro? A questão é saber contrabalancear momentos de calmaria com o pau comendo solto pra não ficar cômico ou mentiroso, em vez de legal.
 Porque o que gera interesse em uma narrativa é a variação e não só a constância.
 Por exemplo, você vai dormir fora de casa e no lugar que você vai dormir tem um relógio que fica fazendo tic tac metodicamente a cada segundo, ou uma pia pingando ping... ping... ping... sem parar em uma altura que é realmente incomoda.
 Nos primeiros minutos você que possivelmente não está habituado a esse tipo de som vai se incomodar e notar cada barulinho desse por um bom tempo, até que uma hora seu corpo assimila o som constante e monótono que você simplesmente ignora e dorme.
 Mas no meio da madrugada o relógio desperta fazendo um escândalo enorme ou a pia explode inundando a casa! (Só que não).
 Passando isso para narrativa, a monotonia é o ritmo que se cria na história quando se permanece em um assunto ou em um “clima” por um determinado tempo (uma pagina, um capitulo, uma seqüência) de forma que a gente se acostuma com aquilo e se acomoda com o que está sendo mostrado.
 Diálogos são bons exemplos disso.
 Os personagens falam coisas corriqueiras ou só expõe acontecimentos que logo são esquecidos por nós e até por eles na história.
 Já o clímax são os pontos que tem impacto suficiente para que sejam lembrados e fiquem na nossa memória e na dos personagens. Uma morte, uma conquista, algo fora do contexto comum.
 São o contrário dos rituais que fazemos todos os dias sem pensar muito, porque são tão repetidos que se tornam automáticos. Como acordar.
 Em um dia qualquer é normal acordar.
 Dois, três dias. Um mês. Até que algo quebre essa “monotonia” (de monótono: que se repete continuamente; invariável, uniforme) pouco ou nada vai mudar.
 Até mesmo um cara que luta contra um demônio que habita sua geladeira todos os dias para que ele possa se servir de mantimentos para seu café da manhã se for repetido muitas vezes se torna uma monotonia. Mesmo tendo impacto a primeira vista.
 Agora se cada dia é um demônio diferente enviado pelo império do mau, a monotonia se quebra e temos um clímax sempre a mão (desde que a batalha não seja igual).
 O clímax é uma ferramenta poderosa para prender o interesse do leitor na história. Justamente por esse poder de impacto que ele tem. Afinal é o momento mais fodão da história.
 É como quando você está ouvindo uma pessoa contar sobre o dia dela, ou em uma aula e não tem nada de interessante sendo falado e você começa abstrair e pensar em outra coisa até que ela fale algo que te prenda a atenção novamente.
 Por isso é comum o clímax ser atrelado a um ponto chave da história, que é quando o autor está quase perdendo o interesse do leitor na história. É quando o leitor sente mais vontade de guardar o livro e ir fazer outra coisa do que continuar a leitura, mídias variadas como a televisão ou o cinema usam de outros artifícios para prender o expectador até o final, porém o quadrinho/livro exige muito mais, porque é um contrato invisível. Ninguém vai achar feio por se você largar um quadrinho no meio assim como vai se você sair no meio do filme do cinema, por exemplo.
 Óbvio que não dá para controlar todas as ações do leitor, apesar de tentarmos prever a maioria delas e esses pequenos pontos de mais intensidade na história são boas ferramentas para isso.
 Porém com grandes poderes vêem grandes responsabilidades.
 Assim como o clímax tem esse poder de prender atenção e gerar interesse em uma história ele tem o mesmo poder de ferrar com tudo se for mal usado.
 Exemplos de clímax mal usados são:
 Excesso de qualquer elemento que tente chamar a atenção do leitor mais do que a história em si: Como sexo, ação, virtuosidade, humor... Tudo isso em excesso estraga qualquer coisa. Porque se muito repetido perde o impacto.
 Falta de impacto: A maioria das histórias possuem uma grande quantidade de monotonia, eu diria que segundo dados do Ipai (Instituto de pesquisas absolutamente Inúteis e da fundação professor Silvio Valeta) 60% a 70% de qualquer história é pra encher linguiça. Complementando com 25% a 35% de acontecimentos que realmente causam uma quebra de ritmo e levam a história adiante. E com 5% de clímax para todas. Porque o clímax geralmente é apresentado no final, de forma a marcar o leitor para ele lembrar da sua história. Porém se essas quantidades se forem mal distribuídas durante a progressão da história tendem a perder o leitor logo no começo ou em um momento de monotonia muito longo. Livros se permitem fazer isso, porém quadrinhos podem exigir mais pontos de interesse (ou pequenos clímax) em curtos intervalos para deixar o leitor mais empolgado.
 Clímax sem progressão crescente: Em histórias que contam com muita ação e impacto é comum usar mais cenas de impacto, porém elas nunca podem ser maior que o grand finale. Uma história que tem uma cena no meio melhor que o grand finale tende a dar um rebosteio louco na cabeça do leitor. Porque se ele não gostar do final, ele vai odiar sua história inteira. Existem exceções claro, mas é o mais comum de acontecer. Porque são poucos que vão ler e reler até assimilar os fatos ou ver que você tentou quebrar essa fórmula propositalmente e até gostar que a coisa foi feita de outra forma.
 O que nos leva a outra ferramenta que é progressão, mas isso fica para outro hora.

 Até.