quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Conheça nossa cozinha #62 - Todo o dia vale à pena?

 Sempre é bom se colocar algumas metas para se incentivar a produzir quadrinhos porque é muito tentador se deixar levar por outras N coisas bem mais interessantes e atrativas do que ficar quebrando a cabeça fazendo historinha isolado do mundo, ainda mais quando não temos muito retorno (ou nenhum) com isso.
  Porém, não só em quadrinhos, mas no geral somos muito cobrados a sermos verdadeiros super homens em tudo o que fazemos sem saber que isso é um objetivo um tanto utópico.
 Tipo, não basta fazer quadrinhos, tem que fazer uma tira por dia, desenhar outras doze horas por dia e ainda publicar uma história fechada de 500 páginas a cada 6 meses, estudar anatomia, perspectiva, cor, luz e sombra, roteiro, fazer um cafezinho e segurar o tchan! (alguém ainda segura o tchan?).
 Não digo que conseguir fazer isso tudo em um dia todos os dias não seria super legal, mas e daí?
 Os jeitos possíveis de dar conta de tudo isso seria ter uma equipe de gente trabalhando com você para conseguir dar conta de tudo isso assim como os grandes estúdios fazem para cumprir tal demanda em um tempo razoável ou diminuir a marcha e se colocar metas mais reais para chegar aonde se quer.
 Por experiência própria digo que fazer tirinhas diárias é algo realmente divertido e ao mesmo tempo maçante, porque chega uma hora que enche o saco.
 É como comer só pizza de quatro queijos todo dia em todas as refeições.
 Você acha que vai ser uma maravilha, mas não passam nem três dias e você já ta vomitando só de ouvir falar em queijo.
 Um caminho para sair desse enjoo todo seria mudar o sabor (já que não tem como mudar a pizza).
 Só que é muito mais fácil ir pelo que a gente já está acostumado e ir levando a coisa no arroz com feijão.
 A tira, ou a postagem diária na rede social tem a função de criar no leitor o costume de ter seu trabalho sempre ali à disposição para a comodidade dele, porque afinal vivemos em um mundo onde a informação é descartável e é óbvio que quem estar em evidência o tempo inteiro é lembrado, só que não.
 Depois de tentar varias abordagens, percebi que o único caminho para ir ganhando publico é o tempo.
 Estar ali todo dia, não significa que você é bom, ou o fato da pessoa ler o que você publica não significa que ela goste.
 Muitas vezes é só uma questão de conveniência.
 Em inglês existe um termo que se chama “comfortable food” ou arroz com feijão no bom português adaptado.
 É tipo a novela.
 A novela está todo dia no mesmo horário no mesmo canal e você sabe mais ou menos o que esperar. Não vai sair muito do esperado. Não vai surpreender (isso pro agrado ou desagrado da audiência) tanto como um filme ou um livro (que pode ser para um publico que procura um outro tipo de experiência, muita vezes frustrante, como a morte de um personagem querido ou um final inesperado).
 Não estou dizendo que um melhor e o outro pior, só dizendo que ambos tem um direcionamento de publico diferente.
 Porém ambos tem uma coisa em comum, conquistaram espaço com o passar do tempo.
 As novelas no Brasil tem mais de 60 anos em exibição uma atrás da outra.
 Tempo suficiente para afetar gerações e se tornarem parte da nossa cultura, assim como foi feito com os livros. Pois existiu um tempo em que os livros eram, e em muitos casos ainda são coisa para poucos.
 Mas então? E o quadrinho? Da para embarcar nessa também de comfortable food? Fazer quadrinho todo dia para manter o leitor interessado pela conveniência?
 Como eu disse, o cara lê porque ta ali, nem sempre lê porque gosta. Às vezes até lê porque não tem “opção” (com aspas porque opção às vezes é preguiça) então ele vai no que ta ali ao alcance da mão dele, seja a banca de jornal, seja a livraria do bairro, seja a rede de contatos dele.
 Tem gente que vive só disso e vai muito bem obrigado.
 O modelo mais padrão é o dos sindicates americanos que compram a tira e vários autores trabalham nela tornando ela uma franquia ou marca (assim como tudo que eles fazem com quadrinhos).
 E tem os independente que vai na onda e consegue se manter postando uma tira inédita todo dia sozinho como muitos autores já fizeram e fazem (e ficaram todos loucos...ou milionários).
 Como leitor eu confesso que gosto de ser surpreendido, gosto de me emocionar e de coisas que mexam comigo, não da pra ficar só no mais ou menos.
 Por isso eu fujo de séries muito longas porque elas precisa seguir formulas para sobreviver, e até nós como autores nos repetimos o tempo inteiro (as vezes sem perceber) porque uma hora a fonte seca. É um horror ter que pensar em uma ideia nova todo dia e ainda querer salvar a pátria com isso. Então o clichê ta ali pra ajudar quando a gente mais precisa dele. E um clichê bem feito mesmo sendo clichê. Surpreende. Porque a gente se repete o tempo inteiro.
 Gostamos das mesmas coisas, pessoas, piadas, rituais, etc, por anos.
 Então da-lhê fórmula repetitiva pra facilitar nossa vida.
 A gente também não precisa ler ou gostar de absolutamente tudo que alguém escreve porque uma hora vai desagradar, não tem como. Ainda mais fazendo a mesma coisa todos os dias.
 Quem é casado ou namora há bastante tempo sabe como é. Uma hora o assunto acaba. Porque o contato é muito frequente.
 Com o conteúdo muito frequente (diário) isso tende a se repetir, por isso a gente tende a criar uma aversão ou a aceitar aquilo por conveniência ou a gostar. Como é com as relações.
 Porém com o passar dos anos a gente tende a mudar o jeito de pensar e de ver o mundo por isso algumas idéias precisam de mais tempo para serem trabalhadas, experimentadas, reinventadas, testadas e até ficar em repouso  amadurecendo e esperando a gente voltar a pegar para trabalhar e conseguir olhar com uma outra visão.
 Por isso é bom sair da prancheta um pouco, respirar outros ares e fazer coisas diferentes para renovar as idéias e se abastecer nossas referencias.
 Como quando tiramos férias do trabalho.
 Ficar isolado do mundo só desenhando o dia inteiro pode parecer um sonho, mas na verdade o bom mesmo seria poder ter tempo para escolher quando e como fazer o que queremos para produzimos com qualidade. Porém a tendência é que se não há cobrança nos tornamos vagabundos naturais e desandarmos a não desenhar, mas até isso é necessário as vezes para refrescar as idéias.
 Sem essa de ser super desenhista.
 Isso não é uma competição para ver quem desenha mais ou quem desenha melhor é só uma jornada de descobrimento individual de cada um.
 Cada um tem seu tempo e devemos respeitar isso.
 Admiro quem desenha todos os dias, e quem não desenha também, mas quando faz, faz bem feito.
 Não estar desenhando, não significa não estar produzindo.
 Um bom vinho que está guardado em uma adega há anos não está só guardado, está amadurecendo.

 Ou ta só tirando um sono mesmo, vai saber...