quinta-feira, 15 de junho de 2017

Conheça nossa cozinha #65 - Faça

 Depois de um tempo sem escrever aqui explico-lhes o motivo da pausa:
- Não tenho mais moral de dizer o que é certo ou o que é errado.

 É sério. Apesar das opiniões expressas aqui nessa coluna serem imparciais ou as vezes totalmente pessoais eu não consigo mais dizer o que eu ou você deveríamos fazer para melhorar nossos quadrinhos.
 Porque como tudo na vida somos completamente mutáveis.
 Muito da referência que eu usava para escrever esses textos era da época em que estudava na Quanta academia de artes e muita coisa é material de um possível curso quando eu tomar coragem para dar aulas, mas acho que agora tenho pouco a dizer com relação a parte técnica.
 Claro sempre há o que dizer e aprender, ainda hoje eu leio quadrinhos estudo sobre roteiro, narrativa e experimento coisas novas e aos poucos pretendo continuar compartilhando com vocês através dessa coluna minhas descobertas, que podem ser vistas na evolução da minha obra.
 Mas cheguei em um ponto que fico indeciso sobre defender um ponto de vista ou outro...
 Porque não tem certo ou errado (opa isso é um ponto de vista) o que vale é a sua intenção e se você consegue alcança-la. E acho que esse é o maior desafio de todos com uma história em quadrinhos, você conseguir passar para o leitor aquilo que você realmente quer passar, ou pelo menos algo próximo do que você imaginou na sua cabeça.
 Pegando um exemplo prático disso, o humor.
 Se minha intenção é fazer o leitor rir e eu consigo, acho que minha intenção foi concretizada. Bem como fazer o leitor se emocionar, criar empatia pelo meu personagem enfim. Mesmo sendo seres únicos sentimos as coisas de modo parecido (eu chamo isso de emoções universais) e saber brincar com isso acho que é a maestria de um autor.
 Percebi isso lendo Dom Quixote, que é um conto tragicômico de 1605 e hoje em 2017 conseguiu me cativar (óbvio que com as devidas adaptações de linguagem e uma bela resumida), mas mesmo assim o Dom Quixote de 1605 nos cativa e sente emoções tão comuns quanto nós sentimos hoje mesmo com smartfones e um estilo de vida completamente diferente, mas mesmo assim somos tão influenciados pelas mídias como o próprio Dom Quixote foi influenciado pelos livros de cavalaria que o deixaram completamente biruta.
 E outro fato é que o autor através das loucuras dos personagens do livro que são uns mais doidos que os outros consegue nos colocar naquele mundo e nos convencer que aquilo realmente aconteceu.
 Acredito que essa seja outra maestria de um bom autor, o convencimento de que aquilo é possível.
 Tipo um filme como Duro de matar.
 Dentro do universo do filme é ok o Bruce Willis sair explodindo tudo, ir sozinho contra um exército. Dentro da proposta do filme isso é aceitável.
 Já isso na realidade soa falso.
 Assim como filmes que tentam ser realistas e não conseguem também soam falsos.
 Por isso digo que essas são as maestrias (ou técnicas) que eu pretendo aprimorar durante minha jornada como autor, e que julgo serem essenciais a que quer compor uma obra de qualidade.
 Tudo bem, no começo do texto eu disse que não conseguia defender um ponto de vista e acabei por defender, o que no fim das contas é bom.
 Por mais que hoje eu tenha dito o que está escrito aqui amanhã posso discordar completamente, assim como discordo de muita coisa que escrevi nessa mesma coluna tempos atrás. Porque a vida é isso.
 Se tens uma boa ideia, experimenta. As coisas no papel ficam completamente diferentes do que são na nossa mente.
 Para melhor
 Ou para pior.
 O importante é fazer.